As formalidades são reflexos de uma burocracia cultural imposta por uma elite avessa a expressão espontânea e a manifestação normal das camadas sociais subalternas. Todavia, a formatação racional de um ritual desempenha um papel necessário na condução de eventos com respeito ao público assistente. Com a ascensão de Lula ao poder, além da desejável flexibilização das formas, corre-se o risco indesejado da naturalização das ''gafes''. O receio se deve nem tanto pela quebra do protocolo nas diversas solenidades inerentes a passagem do comando nacional, mas pela pseudo-tolerância e até estímulo demonstrado a certos procedimentos inoportunos. Se nem tudo que provém da elite é proveitoso, nem todo o tipo de manifestação popular é oportuno e louvável.
Na posse, o novo presidente até comportou-se bem. Cometeu, é claro, algumas gafes que foram bem digeridas num momento de grande boa vontade nacional. O alongamento do ombro se deu em função de uma bursite; o lenço, utilizado como toalha de rosto, foi em decorrência do calor, e uma certa movimentação durante o hino nacional se justificou como oportunidade de tomada de ar e descontração postural. Lamentavelmente, a passagem da faixa foi maculada pela queda dos óculos e pelo desencontro consequente, mas até este incidente foi bem compreendido diante da visível emoção de FHC e sensível humildade do novo presidente.
Porém, se forem consideradas o contexto de manifestação bizarras, as gafes do presidente foram insignificantes diante de multidão apaixonada e dos nobres representantes do Congresso Nacional que se contagiaram como uma grande torcida desorganizada. O que dizer de uma multidão que atravessou as piscinas, pisou na grama, subiu nos mastros e nas árvores e, ainda, jogou água nos guardas? Tudo isto deu um ar carnavalesco e folclórico ao ritual de posse que, a princípio, deveria ser um pouco mais solene. A idolatria do povo exaltando o novo presidente como um salvador da pátria, além de patente, tornou-se patética.
Levou-se à Brasília o cerimonial carnavalesco. Nem Joaozinho Trinta, no auge do seu sucesso na Beija-Flor, teve tanta criatividade como Duda Mendonça, que só falhou na escolha do carro alegórico. O Roys Rolls inglês poderia ter sido substituído, com eficiência, por um fuscão conversível ou quem sabe um Gurgel, um veículo verdadeiramente nacional.
FLADEMIR CANDIDO DA SILVA é advogado em Londrina.

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