A candidatura de Ciro Gomes tem três fraquezas congênitas, que poderão lhe custar a vaga para o segundo turno: 1- não conseguiu colocar nenhum dos grandes jornais e canais de TV de alcance nacional ao lado de sua candidatura; 2- não conseguiu colocar ao seu lado a elite econômica paulista; e 3- está tomado por uma ambiguidade ideológica insuperável, que deixa desconfortáveis os seus apoios à direita e à esquerda.
A grande imprensa está causando um prejuízo colossal na sua imagem. Qualquer coisa que diga ou faça recebe um tratamento de caricatura, o que é utilizado de forma impiedosa para denegrir a sua pessoa. Evidentemente que isso custa muitos votos. O paradoxo é que ele é mais bem votado nas classes superiores do que nas classes inferiores, mostrando o poder que a comunicação de massa tem sobre as pessoas menos letradas, determinando a escolha do candidato.
A divulgação, no sábado passado, do resultado da pesquisa do Datafolha, com destaque em toda a mídia que está a serviço da candidatura Serra, dá bem a medida do esforço que os grandes jornais - como a ''Folha de São Paulo'', o ''Estadão'', ''O Globo'' e o ''JB'' - na candidatura adversária. Normalmente uma pesquisa como essa é reservada como um furo de reportagem. Qual foi a minha surpresa ao ver os seus resultados em todos os sites de Internet no começo da tarde de sábado, quando o jornal só chegou às bancas no começo da noite. Foi uma evidente ''ação entre amigos''.
Do mesmo modo, a falta de apoio no meio da elite econômica do Centro-Sul custa-lhe muito caro. Essa elite adotou a candidatura governista de forma cega, acrítica. A partir daí, passou-se para uma militância ostensiva anti-Ciro, que custa muito em termos de imagem ao candidato. O paradoxo é que o longo governo de FHC foi um processo de extorsão tributária contínua contra as classes produtoras, com acentuação do intervencionismo estatal em muitos mercados, a começar pelo setor de medicamentos, onde o então ministro da Saúde perseguiu as empresas de forma impiedosa. É certo que esse processo será acentuado em um eventual continuísmo. Parece faltar senso de perigo e de grau de justa medida para os empresários, que no Brasil parecem gostar de pagar o esbulho tributário.
Esse motivo, o esbulho tributário, já deveria ser o bastante para colocá-los na oposição, mas isso não aconteceu.
O terceiro ponto gera contradições insuperáveis. A adesão de um economista liberal à sua candidatura causou furor no meio de seus apoios comunistas e socialistas. Por outro lado, a sua ida ao enterro de um dirigente histórico do comunismo brasileiro foi usado como prova de sua condição perigosa para os conservadores, como se houvesse a possibilidade dele se abster desse gesto para quem o apoiou. Da mesma forma, a sua ida ao túmulo de Getúlio Vargas fez muita gente lembrar do ditador e associar sua candidatura a supostos desejos cesaristas.
Essa será talvez a sua falha mais fundamental. Afinal, o homem é comunista ou liberal, socialista ou conservador? Penso que, não obstante se arco de apoio ser tão heterogêneo, predomina na sua formação o traço conservador. Todo mundo diz que o seu eventual ministro da Fazenda seria Tasso Jereissati, paradoxalmente tido como o melhor candidato pelas classes produtoras. Como explicar?
Mas não tem jeito: é assim que está posta a sua candidatura, fruto das circunstâncias em que os fatos políticos acontecem. Só não vê quem não quer que ele, dos três postulantes principais, é quem deveria receber o apoio dos conservadores e liberais. Política é pragmatismo e penso que ninguém sensato pode desejar, seja o perigo abissal de Lula Lá, seja o continuísmo suicida da dupla FHC/Serra.
NIVALDO CORDEIRO é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV-SP

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