Um aspecto positivo da globalização é o avanço tecnológico que promove, o maior, seguramente, registrado na história. Mas o desenvolvimento das tecnologias é tão rápido e seletivo que ameaça deixar para trás, e talvez para sempre, as nações incapazes de correr com a velocidade supersônica da nova era tecnológica, a qual sem dúvida alguma se funda em conhecimento e no conhecimento da educação.
Um outro aspecto positivo da globalização tecnológica é o surgimento da informação ecumênica. Tempos houve em que países com regimes autoritários podiam ocultar seus desmandos. Hoje não, pois a impunidade é cada dia mais difícil no mundo globalizado. Aspecto negativo desse assunto: estamos tão bem informados como cremos? A abundância de informação significa que o que se comunica importa? Ou estamos cedendo cada vez mais a uma cultura da banalidade informativa? Explosão da informação, mas implosão do significado?
O aspecto mais positivo da informação global, é que ela conseguiu universalizar o conceito dos direitos humanos com relação a violação de ditos direitos, como ficou demonstrado no caso do tirano chileno Augusto Pinochet, dando-lhe um caráter não só universal, como imprescritível.
Consideramos como uma das facetas mais perigosas do fenômeno ideológico globalizador, o privilégio outorgado ao capital especulativo em detrimento do produtivo. Segundo alguns dados, em 1970, 80% do movimento de capitais no mundo era de ordem produtivo e só 20% especulativo. Hoje, os percentuais inverteram-se, e basta apertar um botão para o nosso planeta não criar trabalho, nem educação, nem riquezas. É um monstruoso jogo que desestabiliza as moedas nacionais, convertendo sua globalidade num contagioso efeito dominó repercutindo no destino da soberania de centenas de países.
Tal qual o tráfico de drogas, o movimento especulativo não é controlado por governo nacional ou instância internacional alguma. Cria sua própria jurisdição, pouco importando os interesses coletivos e as necessidades sociais dos povos, e gera em sua própria irresponsabilidade catástrofes que geralmente afetam uma nação atrás da outra - Malásia, Japão, Rússia, Brasil etc. - mas deixam intacto o sistema. Não é à-toa que George Soros foi o primeiro a advertir que a economia especulativa já chegou ao seu limite, e se continuar sem freios, é suicídio, arrastando o mundo a uma catástrofe.
Outro aspecto negativo da globalização: ‘‘Vivemos numa economia de mercado, mas não em uma sociedade de mercado’’, declarou recentemente o primeiro ministro da França, Lionel Jospin. Suas palavras nos recordam que a sociedade não se construiu a partir do mercado, mas sim a partir do cidadão.
As tarefas que definem o cidadão são aquelas com as quais o mercado não se preocupa, ou seja: segurança, saúde, educação, enfim valores. Não pode haver verdadeira riqueza sem saúde. As necessidades de alimentação no Terceiro Mundo poderiam resolver-se, nos recordam os socialistas suecos, com uma inversão de US$ 11 bilhões. O consumo de sorvetes na Europa anualmente é de US$ 11 bilhões.
Há milhões de iletrados no mundo. No Hemisfério Norte, os 20% da humanidade recebem 80% da receita mundial, ao passo que no Sul, milhões de seres humanos, ou seja, a terceira parte da humanidade, vivem em extrema pobreza, com receita de mais ou menos US$ 60 ao mês. Sem dúvida, estamos frente a um darwinismo global, e ainda com toda cara-de-pau que lhe é peculiar, o Banco Mundial adverte que em trinta anos duplicará o número de pobres no mundo. Neste caso só caberia falar na globalização da pobreza. O que fazer?
Os órgãos de cooperação internacional que poderiam encarar esta soma de problemas, exaltando os benefícios, resolvendo os defeitos, estão sendo minimizados e ainda excluídos por uma lógica irracional - é um paradoxo - quem gasta US$ 800 bilhões por ano em armamentos ‘‘mas não pode encontrar o dinheiro, estimado em US$ 6 bilhões por ano, para dar escola a todas as crianças no ano 2000’’, adverte-nos, entre outros, Frederico Mayor, diretor geral da Unesco.
Na espera de uma melhor distribuição da receita mundial em benefício de todos não nos resta senão retornar à nossa própria condição nacional e admitir que os problemas globais têm soluções locais e que não há globalização sadia sem sociedades sadias. A noção diminuída de soberania deve recobrar seu sentido predestinado: não há nação soberana na ordem internacional se não é soberana na ordem interna. Isto requer vigorizar a cultura, a democracia e a sociedade civil, mas também um Estado nacional forte, não ‘‘grande’’, e a iniciativa privada consciente de que sem consumidores sadios e educados não há futuro.
Os escombros da globalização só poderão ser evitados se aumentarmos nossos níveis de poupança para aumentar nossos níveis de produção e diminuir nossa dependência do capital especulativo atraindo, em troca, o capital produtivo. Contamos para isso com um capital humano bom, trabalhador, disciplinado, abundante e com uma capacidade muito boa de assimilação e aprendizado. Dependemos mais da educação, da saúde, do trabalho e da economia brasileira e menos da inversão especulativa e sua causa de endividamento.
A situação já determinou uma virada política de fundamentalismo monoteísta de Ronald Reagan e Margarett Thatcher, para a centro-esquerda de Jospin na França, Blair na Grã-Bretanha, Schroder na Alemanha. A América Latina que sempre chega tarde ao banquete das civilizações, como dissera Alfonso Reyes, deve abandonar seu religioso fervor neoliberal por um pragmatismo ético de centro-esquerda que evite o autoritarismo descarado de Fujimori no Peru ou o autoritarismo potencial de Chavez na Venezuela.
Nossas frágeis democracias se não se identificarem com a liberdade política, com o bem estar crescente, podem conduzir a revoltas populares de ‘‘já basta’’. Cabe-nos, não restaurar o populoso ou o desenvolvimento estabilizador, mas sim assegurar a convivência dos benefícios do mundo global com as bases firmes de desenvolvimento nacional em benefício das maiorias, pois cremos que dentro em breve surgirá uma nova ordem econômica mundial, capaz de humanizar a globalização e consequentemente aprisionar o Leviatã, caso contrário será verdadeiramente o fim da condição humana.
- ARMANDO DO LAGO ALBUQUERQUE FILHO é advogado e professor universitário em Cáceres (MT)

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