Fala-se que depois do futebol, o Carnaval figura como parte integrante do pensamento, quando o assunto é Brasil. Esta festa popular possui algumas faces interessantes, dentre elas, o que diz respeito à sua história. Há divergências entre os historiadores quanto ao início desta festa que se transformou numa grande manifestação da cultura popular brasileira.
O que se pode afirmar é que no século VII a.C., Psistrato, governador de Atenas, tornou oficial o culto ao deus da alegria e do vinho, Dionísio (chamado Baco entre os romanos), o qual tinha por características a natureza arrebatada, desinibida, encarnando assim o êxtase e o entusiasmo. No princípio da primavera, lavradores e camponeses festejavam através de procissões, comemorando a colheita, utilizando-se de músicas, danças e vinho. Alguns tinham por costume o uso de máscaras.
O Império Romano não acabou com a tradição grega relativa às celebrações pelas boas colheitas. No período deste Império, estas festas eram conhecidas como Saturnálias, numa menção ao deus romano Saturno. Grande parte das características da festa grega, incluindo o entusiasmo, foram mantidas pelos romanos.
A origem da palavra carnaval, segundo alguns historiadores, pode estar na expressão carrum navalis, que eram os carros navais alegóricos que iniciavam as festas cultuais ao deus Dionísio. Um número expressivo de historiadores defende a tese de que a palavra foi extraída da expressão criada por Gregório I, referindo-se à quaresma, ou seja, ‘‘dominica ad carne lavandas’’ (‘‘tirar a carne’’). Após a liberação dos prazeres carnais, entendido pela Igreja como o estabelecimento da desordem, do caos, seriam necessários dias de reflexão, penitência, introspecção (quaresma), até o renascimento da ordem da esperança, representada pela ressurreição de Cristo (Páscoa).
O reconhecimento do Carnaval pela Igreja só aconteceu em 1545, durante o Concílio de Trento. Denominada pela Igreja como ‘‘festa pag㒒 mas ao mesmo tempo não sendo possível extingui-la, devido ao forte apoio popular, o caminho seria tolerá-la, adquirindo como resultado desta tolerância, a delimitação da festa para quatro dias.
O fato é que mediante divergências e concordâncias, o Carnaval nos faz refletir sobre questões, como a inversão mesmo que ilusória de papéis, onde pobres desfilam como reis e rainhas, e os ricos se fantasiam com os aspectos da pobreza, mesmo que depois da festa, os que verdadeiramente possuem as riquezas continuem a ganhar com a pobreza, e os que viveram por alguns dias a ilusão da realeza, necessitem enfrentar o contexto de lutas e privações, em especial, aqueles que investiram até o que não possuíam.
Outra face da Festa de Carnaval, são os resultados positivos (divisas para o País com o comércio e turismo), que não são contrapostos com os negativos, e nem divulgados, como por exemplo, as mortes no trânsito devido ao excesso de bebidas alcoólicas, o índice elevado do tráfico de drogas (culminando na morte de milhares de adolescentes e jovens), o grande número de abortos e de crianças abandonadas, nove meses depois da festa, o acréscimo nas ocorrências policiais etc.
Por mais que vários historiadores concordem com a interpretação de que o Carnaval surgiu como uma válvula de escape para as classes menos favorecidas, numa alusão à gritante divisão entre as classes sociais de outrora e de hoje também, é preciso ir além, e fazer uma releitura que pode nos revelar algumas faces de uma realidade que nem sempre é demonstrada de forma clara, por vários motivos e por vários interesses.
- MARCO ANTONIO BARBOSA é professor em Londrina
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