As “expressões” da pedra portuguesa
Acostumados aos pisos brilhosos dos condomínios atuais, tentamos reproduzir na rua o ideal de superfície espelhada
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de março de 2026
Acostumados aos pisos brilhosos dos condomínios atuais, tentamos reproduzir na rua o ideal de superfície espelhada
Humberto Yamaki 
As reportagens sobre a recente inundação do rio Mondego, em Portugal, revelam detalhes normalmente pouco visíveis de cidades e aldeias históricas. O calçamento de pedra portuguesa que, além de praças e calçadas, segue avançando entre intrincados becos e vielas. Orientam os caminhos da água.
Diz-se que o uso deste tipo de piso em Portugal começou no século XVI. Logo, um bom observador notará diferenças na textura e cor em cada trecho de uma rua de pedra. Existem variações resultantes de inúmeras jazidas e fábricas. Podemos identificar tons sutis de branco e preto. O tempo se encarrega de tingir os espaços entre as pedras. Reflete os usos históricos do local.
Em Portugal, viajei várias vezes o trecho Coimbra, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz. Seguia o rio Mondego. Em algumas viagens, tive como guia, experientes professores da Universidade de Coimbra. Durante o trajeto, ninguém comentava ou reclamava do estado das calçadas dessas históricas cidades de 300 a 500 anos.
Em Coimbra vi pequenos grupos de artesãos consertando trechos de calçada. Os remendos vão sendo feitos com certa liberdade que a tradição permite. Numa cidade de ladeiras, é possível sim, reconhecer os trechos ajeitados. Podemos concluir que, em séculos de uso, muitos calceteiros, de variados níveis técnicos, de variadas tradições, passaram por ali.
Em Montemor-o-Velho, tentava entender a intervenção do arquiteto Álvaro Siza no restauro do Castelo. Checar a invisibilidade dos novos caminhos de pedra. Entender a continuidade das técnicas como virtude. Em Figueira da Foz, reconheci métodos de manutenção de calçada portuguesa perto do que vemos por aqui. Longos trechos ao longo da marina com impecável piso e, outros, com vários tipos de experimentos na sua conservação. Num trecho perto da ponte do canal, vi inclusive pequena parte com remendo em piso cerâmico branco.
Voltando a Londrina. Talvez seja essa uma característica da calçada de pedra portuguesa ou peti pavê que esquecemos. Não se olha só o detalhe. Olha-se o conjunto. Portanto, é preciso reeducar o olhar. Acostumados aos pisos brilhosos dos condomínios atuais, tentamos reproduzir na rua o ideal de superfície espelhada.
Ouço muitas vezes o seguinte comentário: “Vários trechos do Calçadão de Londrina já foram mexidos. Não é mais o piso original. Assim, vale a pena colocar tudo novo”. Depois das andanças por Portugal, terra das pedras, penso ser a melhor solução: manter o atual “patchwork londrinense” de pedras portuguesas brancas e pretas. Preservar o que resta do piso original de 1977 para os próximos 100, 500 anos. Entender a rugosidade como expressão, virtude e passagem do tempo.
Humberto Yamaki, coordenador do Três Boccas Laboratório de Paisagem.
Os artigos, cartas e comentários publicados não refletem, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina, que os reproduz em exercício da sua atividade jornalística e diante da liberdade de expressão e comunicação que lhes são inerentes.
COMO PARTICIPAR| Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. As cartas devem ter no máximo 700 caracteres e vir acompanhadas de nome completo, RG, endereço, cidade, telefone e profissão ou ocupação.| As opiniões poderão ser resumidas pelo jornal. | ENVIE PARA [email protected]


