Quando o conflito irrompe, só então nos colocamos em posição de alerta, temendo pelo pior. Como se a própria erupção do conflito já não fosse o pior. O Brasil vive agora o momento do conflito das Polícias Militares. Um movimento reivindicatório de homens armados que está sendo enfrentado por homens igualmente armados. Greve só dos homens, porque as armas estão na ativa. Já houve tiroteio.
Se amanhã, pelo uso de medidas de repressão, esta agitação reivindicatória for contida, certamente respiraremos aliviados e iremos cuidar da vida. Mas o problema persistirá. Então, o que devemos resolver é o problema, não suas consequências.
A situação desastrada das polícias - e este é o problema - sempre esteve presente e evidente, mas isto nunca preocupou a sociedade, por extensão não preocupou os governantes. Quando o problema chega à exaustão e irrompe, como agora, aí corremos assustados, como se fôssemos vítimas destes estados de desordem pública e não tivéssemos nada a ver com isto.
Salários baixos, homens despreparados, por consequência insatisfeitos, em grande parte corrompidos e violentos. Esta a realidade que conhecemos de sobra, mas que, como tudo neste Brasil, sempre esperamos para resolver depois.
Não cabe discutir o oportunismo dos movimentos que se acoplam ao das polícias. Tudo é caldo da mesma fervura. Se não houvesse um problema, não aconteceriam os outros. Ficamos nós aqui, agora, condenando os oportunistas. Ora, isto já aconteceu antes, nós sabemos que é assim mesmo. Ou será que somos tão ingênuos de imaginar que o Vicentinho, o Lula, o Rainha, iriam desperdiçar esta?! Ainda mais em véspera de ano eleitoral, ante a ‘‘ameaça’’ da reeleição presidencial!
Estas são as explosões dos consertos. O ideal seria sabermos consertar antes que as coisas explodam, mas se não sabemos, então temos que pagar o preço de nossa negligência.
Até a semente, para germinar e gerar uma nova condição de vida, explode.
Não podemos esperar que anos e anos de insensibilidade, diante de problemas não (ou mal) resolvidos, encontrem a docilidade da militância reacionária. A ação das esquerdas profissionais está na exata medida da negligência do conjunto da sociedade.
Temos que colher as lições desses conflitos. Não haverá quebra do regime dito democrático só por causa da greve das PMs, mesmo com os tiroteios daí decorrentes. Polícias são camadas sociais sem cacife para gerar uma convulsão política. Não há aí poder econômico envolvido. Poder policial, com todo o respeito, não é nada.
(E não podemos deixar perder-se a oportunidade de abrir parentesis e aclarar a memória dos desatentos para a realidade de que não vivemos democracia nenhuma, porque na verdade estamos na dependência de um Congresso ditador e corrompido, que não discute nem aprova as grandes reformas que a nação reclama, a não ser mediante polpudas barganhas. E se não vivemos uma democracia política, também não vivemos uma democracia econômica, porque o dinheiro que aplicamos tem o valor de 1,8%, para menos, enquanto o dos bancos custa cinco vezes mais para o infortunado que precisar dele; e porque os parlamentares e demais eminentes dos três Poderes ganham recheados vencimentos e gordas aposentadorias paralelas, enquanto as polícias promovem agora esta greve da fome e da miséria).
Em verdade não precisamos temer pela sorte de democracias que nem temos.
O Brasil está buscando os seus rumos, a inflação do consumidor orgânico está sob controle, embora seu pouco ganho. Mas apenas a dele. Falta conter a inflação (a mais alta da história brasileira) do empresário que precisa descontar duplicata, que tem que se valer do cartão de crédito, das compras a prazo e dos ‘‘papagaios’’. Caiu em banco e nas factories, é inflação que vai de 4% a 14%. Para ele, os tempos da inflação de 80% ao mês eram amenos, porque todos os seus bens valorizavam-se paralelamente, e havia mercado, de forma que aquele dragão supostamente devorador era em verdade uma inflação real de meio por cento ao mês, ou seja, menor que hoje. Só o assalariado perdia, porque seus vencimentos não eram corrigidos.
O rumo certo é o de agora, não há dúvida, desde que se corrija essa distorção e o Governo de FHC não fique seduzido pelas conquistas já alcançadas do Plano Real ignorando que o Brasil não é só isto, mas é também o colono sem terra (falo do verdadeiro agricultor que, por alguma razão, perdeu suas terras, não do sem-terra que nunca a teve e nem foi da roça, e dos sempre atentos oportunistas que se incorporam como parasitas e sanguessugas, com interesses eleitoreiros e para extravasar suas iras e frustrações; o Brasil é também o sem-teto, o sem-escola, o sem-saúde, o sem-emprego, o sem-esperança, aos quais se associam inocentes úteis e os sem-vontade (de trabalhar), os sem-patriotismo e os sem-vergonha; o Brasil é o empresário (urbano e rural) quebrando; é a ditadura da legislação trabalhista, que pune o patrão e desestimula o emprego; o Brasil é a Justiça lenta e emperrada; é o empreguismo oficial e a facilitação à custa do dinheiro da saúde, da educação e das obras públicas; o Brasil a resolver é este do brasileiro que a tudo assiste, em atitude contemplativa, à espera do milagre, esquecendo-se que a pátria é ele.
Mas pensar, participar e partilhar, êpa, isto traz responsabilidade! Melhor não! Tô fora! Deixa quieto!

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