É verdade que as irregularidades na vida pública envolvendo valores menores em dinheiro perdem em volume para as grandes falcatruas, que ocorrem marcadamente na esfera da administração federal, mas isto não invalida que se combata intensamente também aquelas de menor expressão, como as de Londrina no momento, que desfilam diariamente pelo noticiário e cujos personagens são vereadores e agora funcionários da Administração de Cemitérios e Serviços Funerários (Acesf). Se as grandes negociatas escandalizam a nação, pela elevada quantidade de dinheiro que gira nesse redemoínho, os encândalos domésticos estão mais próximos e expelem o mau odor bem rente às narinas do povo.
Não se pode abandonar a repulsa e o combate aos delitos de teor mais baixo só porque existem os mais altos. Na vala comum das delinquências oficiais eles têm a mesma natureza fétida. Na mais recente denúncia, o vampirismo pelo dinheiro público não poupa nem o mundo dos mortos. Há dias se fala da suposta imposição da tanatopraxia (a conservação de cadáveres) na autarquia dos cemitérios, mesmo que sem necessidade mas como extorsão - de acordo com as denúncias e depoimentos colhidos - e agora consulta feita por este Jornal constatou que, legalmente ou não, aquele procedimento em Londrina é 600% mais caro que em outras cidades. E mais que isso, também estão sob investigação negociações supostamente irregulares de terrenos e jazigos de cemitérios. E nesse pacote desembrulham-se também algumas pérolas, como a de que ''a imprensa pode ter atrapalhado um procedimento investigativo'', pela palavra de um vereador. ''Pelo contrário - rebateu de pronto o controlador-geral do município, Milson Dias - foi com a divulgação (dos supostos achaques no caso da tanatopraxia) que familiares de mortos procuraram a Controladoria''.
Os denunciados e os tuleladores dessas vergonhas na gestão pública (porque a corrupção se opera pelo roubo direto e também por mãos duplas), mais as instituições pertinentes ou agentes que são chamados à responsabilidade por negligência, omissão ou deliberado silêncio, repudiam os veículos de comunicação nessas horas. Alguns se pronunciam e outros curtem calados essa repulsão contida. Melhor que não existisse para eles essa presença incômoda da mídia, a não ser quando dela se valem para difundir os seus bons feitos, que também ocorrem (e que nada mais são que obrigação) e os seus discursos.
As irregularidades em grande escala e as que envolvem valores menores precisam merecer idêntico combate e o repúdio da população, para que os culpados sejam afastados da vida pública e restituam as importâncias subtraídas do povo, quando for o caso, mais a pena de prisão ou outras sanções.

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