As estopadas políticas
Certas mentiras, que passam por verdades, têm até nome: racionalização. É o processo de justificação psicológica de um comportamento qualquer, imputando-lhe outros motivos que não os reais. São mentiras comuns, aliás, no exercício da política. Por sinal, esse processo ocorreu agora no Senado, curiosamente, em dois episódios: um produzido na bancada peemedebista de senadores; outro, na representação das oposições. O fato racionalizado era um só, e a mesma racionalização capciosa ensejou decisões iguais, mas com objetivos opostos.
Vinte e três dos 26 senadores do PMDB (único ausente foi José Sarney) aprovaram sem os votos de Requião (contra) e Fogaça (abstenção), em clima de louvações e constrangimentos, numa votação aberta, como nos anos de chumbo a candidatura do senador Jader Barbalho, presente e votante, à sucessão de Antonio Carlos Magalhães na presidência do Senado.
No encontro dos oposicionistas, tanto quanto no do PMDB, o que pesou na decisão foi a alegação segundo a qual a candidatura peemedebista de Sarney a presidente do Senado fora imposta por ACM, do PFL. Esse argumento, contestado por Sarney, foi uma racionalização. Quem o lançou, antes de ACM, foi Requião.
Somados os presentes nas duas reuniões, não chegavam a 40 senadores. Mas as duas maiorias, numa e noutra, queriam vetar Sarney. O PMDB governista porque o governo apóia Jader; as oposições, pelo visto, porque a vitória do ex-presidente da República faria surgir um presidenciável forte no pleito de 2002.
Entre os peemedebistas, além de Requião, ninguém falou que a candidatura Jader nascera do acordo entre os líderes do PMDB e da maioria na Câmara, imposto aos senadores como fato consumado, para eleger Aécio Neves à direção da Casa.
Quanto a Jader, o acerto de tais deputados era-lhe muito propício, pois o líder e presidente do PMDB está, hoje, em apuros para reeleger-se ao Senado, pelo Pará, em 2002. O eleitor ainda se lembra dele, em 1998, aplaudido por arruaceiros, a ofender, moralmente, na convenção peemedebista, o ex-presidente Itamar Franco, então peemedebista, para impedi-lo de concorrer contra a reeleição de FHC, do PSDB.
A bancada oposicionista indicou candidato do grupo, contra Jader, o senador Jefferson Péres, político independente e respeitável, mas que talvez não consiga votos para derrotar a candidatura palaciana. A oposição, que poderia vencer sem dificuldade, com Sarney, adotou, portanto, no caso, uma posição romântica.
Ficam do episódio lições desanimadoras. A primeira é a de que a mentira racionalizada supera a verdade como valor político. Outra é a de que o romantismo, lastrado de inverdades factuais, agride a busca do aperfeiçoamento político, na medida em que ajuda o jogo sujo de poder dos adversários.
Em tempos de Eça na tevê, digamos, a seu modo: que estopada para a democracia é o nivelamento por baixo dos políticos e partidos políticos, desmoralizador de todos perante o povo.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





