As espirais da história
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sexta-feira, 17 de agosto de 2001
Maria Lucia Victor Barbosa 
Se observarmos o dinamismo da vida, veremos que apesar das mudanças contí nuas das socie dades, certas es sências perma necem, repetin do-se nas espirais da história, induzindo os homens aos mesmos erros e às mesmas ilusões. Numa das vertentes das ilusões brotam as utopias, sonhos de resgate de um paraíso perdido, inexoráveis trajetórias riscadas em mentes privilegiadas que ao se transportar ao nível do real transformam o sonho em pesadelo.
Das utopias brotam as revoluções, promessas de sociedades de abundância e justiça para todos. Entretanto, nenhuma revolução cumpriu sua promessa, incidindo seus líderes nos mesmo erros e vícios que antes contestavam.
Mesmo nos modernos sistemas democráticos, onde o povo delega poder por tempo determinado aos governantes através da via eleitoral, resquícios de utopia e a inclinação do ser humano à ilusão levam em muitos casos a escolhas equivocadas de salvadores da pátria. Uma vez no poder, esses ''guias do paraíso'' costumam revelar-se iguais ou piores do que seus antecessores. Ainda assim, melhor a democracia, cujo mérito não reside na sua perfeição enquanto sistema, pois isso seria impossível a partir de homens imperfeitos, mas no fato de que nas democracias sempre se pode trocar de governante.
Mas voltemos ao século 19. Naquela época, o jovem Karl Marx observava a expansão fulgurante do capitalismo, o novo sistema econômico que incrementava o fenômeno da produção e do investimento, ao contrário do antigo regime baseado na renda e nos juros da poupança. Este aspecto econômico, por sua vez, se inscrevia no contexto político da democracia nascente, pois até então, como explica Julien Freund, a democracia não passava de um conceito dentro da classificação tradicional dos regimes políticos. Com o liberalismo, a democracia transformou-se em forma viva de gestão política, graças à distinção entre maioria e minoria.
Segundo Marx, o curso das coisas só poderia orientar-se no sentido da criação de uma maioria formada pela classe operária, revolucionária por excelência, e que para ele seria a futura classe dominante. Para apressar o processo, que desembocaria no final da história, ou seja, na sociedade comunista, Marx preconizou o terrorismo. Em 7 de novembro de 1848, ele escreveu na ''Nova Gazeta Renana'': ''Existe apenas uma maneira de abreviar, simplificar a agonia de morte da velha sociedade e as dores do parto da nova sociedade: o terrorismo revolucionário.''
Contudo, a sociedade de igualdade, justiça social e paz perfeita quer dizer, o socialismo anunciado se foi terrorismo revolucionário não chegou a ser a doutrina libertadora que Marx anunciou, porque, em toda a parte em que foi aplicado desembocou no despotismo e no atraso. O fim da União Soviética, a queda do Muro de Berlim, a derrocada e as distorções do chamado socialismo real em todo o mundo, puseram em xeque a utopia construída com boa-fé por seu autor, mas que posta em prática desmistificou a idéia de redenção do socialismo como fonte de progresso e justiça social.
Curiosamente, pesquisa realizada pelo Ibope há oito meses no Brasil constatou que 55% das pessoas ouvidas aceitam a idéia de que o País precisa passar por uma revolução socialista. Outra curiosidade: os entrevistados ainda pensam como os socialistas utópicos do século 19. Alheios ao totalitarismo gerado pelo socialismo no século 20, ainda associam este sistema a conceitos tais como ''igualdade de oportunidade para todos, humanidade, fraternidade, amizade, direitos iguais, partilha, justiça etc.'', que na verdade não existiram em termos reais.
Para os brasileiros, a revolução socialista está também dissociada da luta armada, o que deve fazer Marx e Engels tremerem na tumba. Para culminar, Lula e o PT são associados a este socialismo idílico e tropical, que nunca foi definido nem pelo próprio Partido dos Trabalhadores. Não perceberam ainda meus ingênuos compatriotas, que no poder de Estados e prefeituras, o PT tem se revelado muito parecido com a situação que antes criticava, e que hoje as diferenciações entre esquerda e direita foram abolidas para ficar apenas nos cenários políticos os pólos políticos da situação e a da oposição.
O que vale hoje, portanto, não é mais a ideologia, mas sim a competência para governar. Mas como ainda estamos no século 19, fiquemos não com a produção e o investimento, mas com o antigo regime de renda e juros da poupança. Afinal, somos um povo que ama o socialismo. Depois, não nos queixemos.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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