O desafio do pluripartidarismo, portanto da democracia, para o próximo século, no Brasil, será a mudança de paradigmas de sua estratégia de persuasão. Ficaram longínquos os apelos retóricos, a tal ‘‘catedral da palavra’’, pelos quais os políticos falavam, falavam - com vozes de locutor de rádio -, mas nada não diziam. E por certo ficarão distantes também os apelos artificiosos da mídia, se utilizados isoladamente. Penso que o futuro dos partidos políticos haverá de estar na participação integral em todos os segmentos sociais. Os que insistirem na endogamia intramuros, cairão fora do processo de construção social.
Os resultados positivos, em termos proporcionais, alcançados por alguns partidos, no pleito eleitoral deste ano, bem demonstram essa nova realidade. É forçoso reconhecer que o trabalho de base, em marcha desde seu surgimento, está sendo a melhor explicação do êxito desse partido. Sua prontidão ficou evidente, por exemplo, quando a CNBB promoveu o plebiscito a respeito do não-pagamento da dívida externa. O objetivo era medir a expectativa popular quanto a um eventual calote nos credores estrangeiros. Os críticos disseram que, em plena era da globalização, a simples cogitação de dar calote colocaria nosso país no limbo, cortaria o crédito externo e interromperia muitos programas sociais - além do que, mais da metade dessa dívida (65%) nem é pública. Na linguagem de código alto, veiculada nos meios de comunicação, a proposta só não foi rechaçada pelos intelectuais ligados aos partidos que apoiaram a iniciativa. As considerações técnicas, porém, não alcançaram a maioria dos que participaram do evento. E a CNBB comemorou o retumbante ‘‘sim’’ escolhido por cerca de 95% dos que votaram. Como foi possível isso? Ora, basta observar o trabalho de base - legítimo, é bom que se diga -, feito nas comunidades religiosas, nas escolas, nas universidades, nas associações de moradores, em todos os núcleos de organização popular nos quais a disciplinada militância daqueles partidos está participando.
Os outros partidos políticos, se quiserem sobreviver e manter vivo o pluralismo democrático, terão de se reciclar, atualizar-se e tratar de se envolver mais nas questões das comunidades. Afinal, qual é a alternativa que eles estão oferecendo para a formação da consciência crítica, para a politização, para o esclarecimento e convencimento do eleitorado? A conquista dos espaços políticos, hoje, está acontecendo a partir dessas organizações comunitárias, nos conselhos, nas associações - inspiradas nos sovietes russos (!) -, onde cidadãos se reúnem, discutem e votam proposições. Ganha espaço o grupo que se articular melhor. E se os ideólogos dos outros partidos não viram isto, é bom que comecem ver: as lideranças comunitárias, emergentes nesses núcleos de organização social, sustentadas por grupos bem treinados, bem doutrinados, com linguagem própria, com disciplina de plenário, têm um poder de convencimento impressionante. Os cidadãos comuns que quiserem participar dessas organizações, munidos apenas de sua boa vontade, levarão um baile.
É democrático, claro, que as pessoas se organizem em torno de idéias e ideais. Mas é preciso que todas as tendências o façam. As que não se organizarem serão banidas. Eis aí o novo papel dos partidos políticos: preparar seus quadros para tomar assento e participar, o mais amplamente possível, dos debates correntes nesses núcleos sociais de deliberação, cada vez mais numerosos e presentes em todos os segmentos da sociedade. Porque se uma proposta se tornar hegemônica, totalizante, poderemos cair novamente num pernicioso, e patrulheiro, unidimensionalismo, a ideologia única, o pensamento único, típico das ditaduras.
Assim, todos os partidos políticos devem sair a campo, levar sua escola para discutir, argumentar e buscar persuadir em prol de suas idéias. E precisam fazê-lo em defesa da liberdade de todos, da democracia, do heterogêneo social. Porque assim como ocorreu no tal plebiscito - em que talvez muitos votantes tenham votado mais em função da persuasão da militância do que pela lógica do texto escrito -, outras propostas poderão vir e prevalecer, porque simplesmente não enfrentaram contrapropostas competentes.
Que os ideólogos dos outros partidos políticos também observem e estudem mais essas organizações deliberativas populares, e esses conselhos oficiais (municipais e estaduais) paritários, dos quais participam organizações não-governamentais. Terão muito o que aprender ali em termos de partidarismo político atual.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba