A maior desgraça que se abateu sobre a sociedade brasileira, do ângulo da segurança pública, ao longo das últimas décadas, consistiu na presença do narcotráfico em 98% dos municípios. Essa desgraça veio de mãos dadas com o alargamento do consumo de entorpecentes, particularmente do crack, ao ensejo de dois fatores: de um lado, a agressiva política dos narcotraficantes. De outro, a irresponsabilidade dos governantes ligados ao PT. Como o ponto forte da estratégia lulopetista consistiu na conquista da hegemonia à maneira gramsciana, dissolvendo as instituições republicanas para pavimentar o caminho rumo à dominação total, os narcotraficantes encontraram o caminho aberto para alargar o seu mercado da morte.

A primeira consequência desse criminoso descaso foi a instalação da violência pelo país afora, principalmente naquelas regiões menos desenvolvidas, que não tinham infraestrutura para combater o mal. Foi assim como a Amazônia e o Nordeste se tornaram portas para a exportação de narcóticos, especialmente cocaína, que passou a ser refinada no Brasil.

Com o combate dado aos narcotraficantes no eixo andino, no período mencionado, os financiadores do mercado da morte (a máfia italiana e os narcotraficantes colombianos e latino-americanos em geral), decidiram, no final dos anos 80, deslocar o eixo de exportação de narcóticos para o leste da América do Sul, concretamente para o Brasil. Afinal de contas, o país-continente apresentava mais de 8 mil quilômetros de praias mal vigiadas, e, de outro lado, tinha se sedimentado uma política de festas populares multitudinárias, ao ensejo do carnaval e das festas regionais, que constituíam ambiente propício para alargar o mercado da morte. [No meu livro intitulado: Da guerra à pacificação: a escolha colombiana. Campinas: CEDET / Vide Editorial, 2010, faço uma detalhada análise dessa estratégia internacional dos narcotraficantes].

A consequência estratégica dessa desgraça é que o combate à violência é absolutamente ineficaz, se não se enfrenta o problema onde está sedimentado e atormenta a vida dos cidadãos: no município. O sucesso das políticas de segurança pública implementadas, na Colômbia, pelos governos de Alvaro Uribe Vélez e Juan Manuel Santos, decorreu exatamente do fato de que encararam a problemática da segurança ali onde a insegurança ocorria: no município.

O bom senso das políticas anticrime desenhadas pelo então presidente Bolsonaro e pelo ministro da Justiça Sérgio Moro, no pacote de luta contra a violência que foi apresentado ao Congresso, radicava justamente aí: foi a primeira grande proposta de uma política nacional contra a insegurança e o crime organizado, pensada a partir dos lugares onde os cidadãos moram. Não é à toa que a federação dos meliantes tratou, por todos os meios, de inviabilizar a aprovação do pacote de Moro, tendo infelizmente sido reforçada essa iniciativa do mal pelo Congresso, que terminou arquivando a proposta do então ministro da Justiça.

O sucesso da iniciativa das escolas cívico-militares decorreu justamente do fato de se inserir nesse novo contexto. Ali onde surgia uma nova escola cívico-militar, os traficantes sumiam. Planos nacionais, pensados no conceito pouco prático de um “Sistema Único de Segurança” não dão certo, porquanto não respondem à variada forma de aparição da delinquência nos municípios. Essa é a principal falha das políticas nacionais de segurança dos governos petistas. Tais planos fizeram com que os narcotraficantes se deslocassem de região para região, espalhando o crime e a insegurança.

Como grande novidade do seu terceiro mandato, o presidente Lula anunciou o fechamento das escolas cívico-militares. Um verdadeiro absurdo que, felizmente, vem sendo enfrentado pelos governadores e prefeitos dos estados e municípios onde existe essa modalidade de ensino. Ora, esses administradores públicos consideram que não se pode fechar, da noite para o dia, escolas que estão dando certo e que melhoraram em muito o clima de paz para o correto desenvolvimento das atividades pedagógicas. Lula enfrenta, hoje, a resistência desses administradores públicos patriotas, que são conscientes da importância das escolas cívico-militares e que deixaram claro que elas continuarão a funcionar nos estados e nos municípios que estão sob a sua responsabilidade. Palmas para eles!

Ricardo Vélez Rodríguez, professor de filosofia e ex-ministro da Educação

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