O futuro caminha com duas pernas - justiça social e alta tecnologia - sobre o terreno da democracia com estabilidade. Nos últimos anos, houve grandes avanços na pavimentação do terreno, mas o futuro caminha mancando sobre uma perna só, do avanço técnico, e o resultado já mostra ser desastroso do ponto de vista social.
As alternativas que procuravam justiça social não souberam solidificar a democracia, nem criar uma dinâmica satisfatória para o avanço técnico; aquelas que procuravam enganar o povo, por meio do populismo, ficaram atrasadas tecnicamente e foram criadoras de instabilidade política e monetária. Ambas cederam lugar ao modelo do desenvolvimento capitalista moderno, da alta tecnologia com desemprego, pobreza e exclusão social.
Talvez o mais simbólico pólo desse moderno capitalismo seja o conjunto com cerca de 150 prédios onde funciona a Microsoft, em Seattle. Na sala de entrada do seu centro de convenções há um grande pedaço do que um dia foi o Muro de Berlim. Não é difícil imaginar o duplo significado daquele histórico pedaço de cimento.
Mais do que qualquer outra empresa, a Microsoft simboliza a força do Ocidente, desnudando a ineficiência produtiva do socialismo no Leste Europeu. Além disso, é parte fundamental da tecnologia que constrói um outro muro, uma cortina de ouro, separando os ricos e os pobres do mundo.
Em uma conversa, Steve Ballmer, o principal executivo da Microsoft, disse que seu filho de dez anos jogava xadrez pelo computador, desde Seattle, sem saber onde morava o seu desafiante, até descobrir que era um jovem de 16 anos que morava na Itália. Assim quis mostrar que o mundo está totalmente integrado para quem usa computador, não importa onde more, nem a idade que tenha.
Ao ouvir isso, perguntei como ele imaginava que a Microsoft, além de integrar os jovens do mundo rico, poderia ajudar a incorporar ao mundo de seu filho e seu amigo italiano as centenas de milhões de crianças excluídas da modernidade, pela pobreza e pelo trabalho precoce. E se ele via um papel político, dele e de Bill Gates, na mobilização dos recursos da riqueza mundial com a finalidade de derrubar a cortina de ouro que separa os incluídos dos excluídos. Sua resposta foi franca, lembrou que a Microsoft tem fama de arrogante com resposta para tudo, mas ele não sabia que proposta oferecer. Foi uma dupla modéstia: porque assumiu não saber e porque não quis citar os programas sociais financiados pela fundação de Bill Gates, que se concentra sobretudo na vacinação de crianças no mundo.
Esse é um papel de governos, especialmente de um país como o Brasil. Os governos dos países ricos não têm necessidade de pensar isso, porque todas as suas crianças já estão dentro da modernidade informatizada, os países muito pobres não têm como garantir o fim da exclusão. O Brasil é o País que tem o problema, os recursos e sabe como fazer para eliminar a exclusão social.
Visto como uma unidade, o Brasil é o País que pode ter um programa nítido com as duas pernas do progresso: a alta tecnologia e a justiça social. Se o próximo governo tiver um programa competente e disponibilizar os recursos para essas duas áreas, com responsabilidade e eficiência, o resto acontecerá naturalmente. Os dois desafios do século XXI são abolir as necessidades essenciais e criar uma infra-estrutura de desenvolvimento tecnológico, garantindo a todos os brasileiros acesso aos serviços básicos e permitir ao País não se distanciar dos centros do mundo, e evitar o risco de isolar-se em definitivo da modernidade, social e tecnológica.
Mas o Brasil tem como caminhar sobre essas duas pernas. Precisa apenas acabar com o complexo de inferioridade em relação aos ricos do mundo e com a falta de sensibilidade em relação aos pobres brasileiros.
CRISTOVAM BUARQUE é professor na Universidade de Brasília e autor do livro ‘‘Admirável Mundo Atual‘‘

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