As duas facetas do medo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de dezembro de 2008
Daniel Limas<br>Carreira & Sucesso 
De um lado, estão as empresas, que exigem que seus funcionários cumpram metas e prazos agressivos, sejam pró-ativos, criativos, ousados, trabalhem em equipe, entre uma série de funções. Do outro lado, existe o próprio funcionário, que, por conta dessas exigências, vive se perguntando se ele está no caminho certo, se é um bom profissional, se age de acordo com os ideais da organização. E rodeando esses dois lados, está o medo, sentimento comum a todos os seres humanos. Saiba que o medo, na medida exata, pode ser benéfico. Mas, em exagero, pode atrapalhar, e muito, a sua carreira.
O medo é fundamental para a sobrevivência das espécies. No entanto, a importância e o peso que esse sentimento tem muda conforme a cultura do país. ''No Japão, por exemplo, perder o emprego é visto de forma dramática. Em casos extremos, muitos chegam a cometer o suicídio'', explica José Roberto Heloani, professor da Fundação Getúlio Vargas.
No campo profissional, o impacto do medo nas pessoas foi mais fortemente percebido nas três últimas décadas. E isso não significa que nossos pais não tivessem medo de perder o emprego ou temer o insucesso. Com o desenvolvimento da economia, houve o crescimento do medo. Assim como a economia é muito dinâmica, as empresas passaram a exigir que seus funcionários também se tornassem mais competitivos e acompanhassem as constantes mudanças nas organizações.
''Se num passado recente, nossos pais permaneciam 20 ou 30 anos em uma mesma empresa, hoje essa realidade é completamente diferente. Antes, as funções eram claras. Hoje, as regras podem mudar a qualquer momento, e isso gera uma série de temores e fantasmas'', explica José Roberto Heloani.
Com esse cenário, é muito comum que os profissionais passem a ter dúvidas sobre a sua identidade profissional e seus próprios interesses naquela organização. O contrário também é válido. ''Portanto, 'Quem sou eu?' e 'O que sou capaz de fazer?' são duas grandes perguntas do mundo corporativo'', explica o professor.
As pessoas passaram a fazer o trabalho que antes era feito por duas, ou às vezes, até três pessoas. Além disso, chegam cedo, saem tarde, alimentam-se mal, dormem mal e pouco, e ainda estão submetidas a altas cargas de estresse. E toda essa pressão pode gerar diversos medos nos profissionais como: medo de tirar férias, de liderar equipes, de opinar, de ser demitido, entre outros.
Hora de pedir ajuda
Ter medo é natural e, na medida certa, é positivo. ''O medo de não obter êxito nos estimula. Já, quando o medo é exagerado, passa a inibir a pessoa. Isso acontece em diversos campos, como no trabalho e nos estudos'', comenta o psiquiatra Tito Paes de Barros Neto.
Nesse momento, quando o medo interfere negativamente, é recomendável procurar ajuda de um profissional: psicólogo ou psiquiatra. Dependendo da situação, uma terapia pode resolver o problema, e em casos mais sérios, remédios são ministrados.
Enquanto o medo não passa, o que fazer com a rotina de trabalho? Não há uma atitude certa ou errada. Vai depender de cada gestor e da cultura da empresa. ''É nessa hora que podemos perceber quando um líder é bom ou não. Se ele consegue manter coesa uma equipe e não deixar que os diversos fantasmas interfiram no dia-a-dia, pode estar certo que ele é muito competente'', explica o professor José Roberto Heloani.
Dessa forma, o papel do líder é fundamental. ''Em uma empresa sem a cultura do medo, todos ganham. Caso contrário, a tendência do medo se ampliar é muito grande. E o que era um fantasma, vira um monstro, o que pode afundar uma empresa'', finaliza José Roberto Heloani.


