Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Vamos por parte. A governadora maranhense, Roseana Sarney, junto com o cardinalato pefelista, acusa o governo federal, especialmente o ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira, de ter tramado a apreensão de documentos na empresa Lunus, na qual é sócia de seu marido, Jorge Murad, ex-secretário de Planejamento do Maranhão, com objetivos puramente eleitoreiros para prejudicar sua campanha à presidência da república. O Ministério Público alega que o processo tramita há anos na esfera da justiça, sob a rubrica de investigação sigilosa, e a Policia Federal apenas cumpriu uma ordem judicial. Agora o inquérito está em Brasília sob a tutela do Superior Tribunal de Justiça - STJ. As razões de tamanha balbúrdia o Brasil inteiro conhece: as suspeitas do desvio de recursos da SUDAM e a ausência de explicações plausíveis para a origem de R$ 1,34 milhão encontrados no cofre da empresa.
A primeira coisa é que tanto Roseana Sarney como Jorge Murad, na condição de cidadãos brasileiros, têm todo o direito de exigirem na Justiça que esta operação de guerra seja apurada e, caso haja qualquer irregularidade, os responsáveis sejam punidos. A segunda é que ambos tem o dever, não só como cidadãos mas pelo fato de ocuparem cargos públicos, de provarem que todas as acusações são falsas. Mais ainda: autorizarem a abertura dos sigilos bancário e fiscal a fim de que nenhuma dúvida permaneça sem resposta, afinal há um fato concreto, uma prova material que é a dinheirama exposta aos fotógrafos, jornalistas e aos 170 milhões de patrícios.
O Brasil merece uma satisfação e os fatos, doam a quem doer, devem ser apurados até o final. Ao longo dos nossos 500 anos de história, fomos vítimas de todo o tipo de espoliação, mas algumas, como àquelas que se assemelham as Capitanias Hereditárias, ainda resistem ao pós-colonialismo. Lembrou bem o jornalista Marcio Moreira Alves, em O Globo, ao definir o conceito de patrimonialismo segundo Max Weber, como sendo ‘‘o regime no qual os governantes confundem o patrimônio público com o particular’’. Disse ainda que seria uma evolução do feudalismo, no qual o senhor feudal absorve para o consumo próprio todo o excedente econômico gerado nas suas terras. Evolução porque o governante patrimonialista se compromete a manter em funcionamento, por mínimo que seja, o aparelho do Estado. No caso maranhense, concluiu Moreira Alves, ‘‘o conceito se aplica com exatidão às oligarquias locais, especialmente à oligarquia Sarney, que é a hegemônica’’.
Mais grave ainda pelo fato da governadora-suspeita estar pré-candidata a presidente da república. Em qualquer país minimamente sério, este fato seria mais que justificável para sua renúncia, no entanto, os coronéis remanescentes ainda acreditam que são capazes de manipular o povo como massa de manobra e usar da farsa, da mentira, da prepotência e da soberba como métodos de convencimento. A sociedade amadureceu e sabe o quer. Muitas vezes pode até mesmo não saber como chegar lá e aí sim, ser envolvida pelo discurso vazio e populista dos quem nada tem a acrescer. Mas os antigos já ensinavam que no ‘‘andar na carruagem é que as abóboras se ajeitam’’. De tempos em tempos; de eleições em eleições, nos transformamos em aprendizes da esperança.
Apesar dos pesares este país tem evoluído - e muito. Na última década fomos palco de grandes espetáculos, só vistos em democracias plenas onde a população é capaz de reagir, sair às ruas e manifestar-se livremente. Um presidente da república, senadores, deputados, enfim, uma parcela da casta dos donatários foi obrigada a renunciar ou excluída da vida pública. O resultado das últimas pesquisas eleitorais é mais uma demonstração que a impunidade, que a lei do ‘‘sabe com quem está falando ?’’ tem seus dias contados. Enganam-se os que pensam que em Quixeramobim, Xique-Xique, Cabobró ou Cruzeiro do Oeste, minha terra natal, a tigrada não está atenta a cada gesto em falso. Esta é cara do Brasil. Do Brasil que todos queremos.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba.

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