As diferentes faces da corrupção
As diferentes faces da corrupção
Rubens Bueno
Independente dos seus desdobramentos, os despachos dos juízes Celso Saito e José Roberto Pinto Júnior, de Londrina, merecem uma análise aprofundada, por parte de todos aqueles que lutam por um Brasil e um Paraná melhores. Os documentos, publicados na íntegra pela Folha, impressionam muito, se examinados em suas minúcias.
Em parte porque, de um lado, se comprovados os fatos, fica evidente a certeza de impunidade, nos diversos e sequenciais atos e iniciativas, cometidos pelos organizadores de tanta safadeza. De outra parte, porque os documentos revelam, de forma estarrecedora, uma outra extensão nesse enorme estrago: envolve, nas irregularidades apuradas pelos promotores de Justiça, desde cidadãos comuns, que tiveram seus documentos usados, até inúmeros servidores da prefeitura, pequenos empresários e diversos profissionais conhecidos, parte desses técnicos com passado ilibado e boa folha de serviços prestados à sociedade.
Temos apoiado, na condição de congressista e de presidente regional do Partido Popular Socialista (PPS), desde o início das investigações no ano passado, a atuação do Ministério Público e esse movimento comunitário de Londrina, em sua luta pela moralidade. Por essa razão, nos sentimos a vontade para sugerir ou propor duas linhas de reflexão e análise política sobre os fatos apurados, uma delas de caráter corretivo e outra de caráter preventivo.
Sendo a corrupção um mal que vem se espalhando e enraizando como um câncer, atingindo de cima para baixo quase todos os tecidos e segmentos mais vulneráveis de nossa sociedade, a primeira reflexão que devemos fazer é a de que a Justiça extirpe esse tumor sem vacilo, não se admitindo, no caso, qualquer forma de impunidade, de modo que todos os inúmeros envolvidos, sem exceção, assumam sua justa parcela de responsabilidade. Para os agentes passivos e primários dessa história, nada melhor do que colocá-los em serviço da sociedade, à qual, de forma voluntária ou involuntária, prejudicaram.
Devemos acompanhar com atenção os pronunciamentos e o que têm a declarar esses pequenos partícipes ou laranjas, nos atos de cada escândalo de corrupção. Ouvindo o que eles têm a dizer, talvez venhamos a admitir que quase todo cidadão está, por algum momento da vida, também vulnerável ou sujeito a diversas formas, mais ou menos graves, de infração, desde o simples consumo de mercadoria contrabandeada ou pirateada até a mera sonegação, sob diferentes aspectos, de qualquer um de seus deveres cívicos, entre os quais a jornada de trabalho ou a produtividade que lhe cabe.
Assim, com humildade, veremos que a corrupção é um mal que, infelizmente, não está assim tão distante de cada família brasileira, esteja ela na periferia ou nos centros da sociedade. A natureza humana, sendo assim, não estaria então imune à corrupção, de modo a que cada dia se envolvem mais pessoas em tal sujeira? E, como no Evangelho, na passagem de Maria Madalena, não poderíamos, dessa forma, atirar a primeira pedra nesses atos de improbidade?
A segunda reflexão, a qual estamos propondo a partir dos fatos e do escândalo de Londrina, tenta responder a essas duas importantes questões. Se o ser humano não fosse passível de contaminação moral, não seriam necessárias as organizações religiosas, para o constante aperfeiçoamento espiritual das pessoas. E nem seriam necessários os governos, para distribuir, com justiça e entre todos, os deveres e os direitos da sociedade. Em outras palavras, a utopia anarquista seria verdadeira.
É justamente aí, nas organizações governamentais e de Estado, encarregadas pelo povo eleitor de, sobretudo, zelar pelo bem comum, que não se pode admitir, sob nenhuma hipótese, qualquer forma de apropriação individual sobre os recursos coletivos. Entretanto e infelizmente, a cada dia que passa é descoberta e retirada mais e mais sujeira por debaixo desse tapetão nacional, tornando banais as culturas do delito, da violência e da transgressão, dentro das instituições e no seio da própria sociedade.
Em boa hora começamos, agora, a nos envergonhar da condição moral de muitos dos governantes, que elegemos ou permitimos eleger, tomando atitudes concretas para erradicá-los da vida pública. Os custos iniciais dessa tarefa são altos, pois, além do ônus da investigação judicial, faz com que reconheçamos o desleixo político da própria comunidade, na hora de escolher o voto e apoiar os candidatos, bem como a imperfeição das instituições democráticas em vigor.
Sendo assim, cabe romper com o modelo político dominante, expurgar da vida pública essas velhas raposas da demagogia e vacinar de vez as instituições brasileiras contra essa doença, que se alastra, lesa materialmente, envolve pessoas vulneráveis e também corrompe a alma do cidadão comum.
A vacina que defendemos, para as instituições de governo, é o permanente controle popular direto sobre as ações públicas, através de Comitês, Agências e Conselhos da comunidade. Tivemos o privilégio de implantar esse novo modelo de democracia popular em Campo Mourão, onde o povo programa e acompanha com detalhe e nos seus valores todas as ações da prefeitura. Naquela cidade procura-se evitar, assim, despesas e desgastes no futuro, com infindáveis investigações e medidas corretivas, como essas que se fazem necessárias em Londrina.
Esse, talvez, possa ser uma vacina, ou, se preferirem, o caminho preventivo contra a terrível e contagiosa doença da corrupção. Um caminho onde ainda é necessário um exaustivo trabalho de regulamentação, para que se garanta e viabilize, de fato, mecanismos e instrumentos da democracia direta e de cidadania plena.
- RUBENS BUENO, ex-prefeito de Campo Mourão, é deputado federal e presidente do PPS-PR





