As denúncias contra prefeitos
Frequentemente este Jornal traz notícias de prefeitos paranaenses acusados de irregularidades administrativas e de desvio de dinheiro público. As denúncias, portanto, não ocorrem apenas com relação aos parlamentos, aos quadros do Poder Executivo e aos partidos políticos, mas estão nas repartições bem próximas dos cidadãos. Porque não há poder que tenha contato tão estreito com o povo como as prefeituras e as câmaras municipais. Olha-se especialmente para Brasília mas muito pouco para as assembléias legislativas e para os municípios, onde amiúde acontecem assaltos ao patrimônio público, por via de péssimos homens públicos. Desde os mais exorbitantes até os crimes menores como o do encarregado público que ganha um terreno para aprovar um loteamento, e de vereadores que recebem propina para aprovar um projeto ou rejeitá-lo. Os veículos de comunicação são geralmente informados pelas ''vítimas'' (ou cúmplices) desses casos, que nunca vêm cercados das necessárias provas a não ser a fé da palavra porque isto é obviamente impossível. Quem é envolvido não formaliza uma denúncia mas costuma passá-la adiante e assim ela passa a circular de boca em boca, e quase nada fica encoberto. O povo sempre sabe quais são os políticos e governantes corruptos. Se alguns casos chegam aos tribunais, se arrastam por muitos anos pela dificuldade de reunir comprovações e também pela lentidão do sistema processual, e assim a maioria caduca, pela expiração de prazos. Raríssimamente algum caso comprovado de apropriação de dinheiro público resultou em devolução. Às vezes, só uma pequena parcela é devolvida, e findo o corolário das procrastinações favorecidas pela elasticidade das leis o administrador delinquente passa a usufruir tranquilamente dos valores subtraídos, numa afronta à população e a todos os princípios da moralidade. Geralmente esses bens já estão em nome de terceiros acumpliciados. Se prisões ocorrem, elas são de curto tempo e o produto do roubo nunca volta ao cofre público. É comum obras da esfera municipal serem superfaturadas, conforme denúncias históricas e que compõem a crônica escandalosa da administração pública brasileira. Não é exagero afirmar que grande parte dos que se candidatam a cargos públicos visa, primeiro, o emprego cujo ganho é sempre polpudo e a oportunidade de lançar mão do alheio. Cada qual dirá que com ele não é assim, mas o tempo vai passando e é usual que, de repente, o cidadão se depare com a notícia de que também este, em que depositava confiança, o decepcionou. Porque a visão de tanto dinheiro passando ante seus olhos o seduz e tem o poder de contaminá-lo. O exercício do encargo público é um teste infalível para auferir virtudes, e são muitos os que capitulam. Essas notícias pouco lisonjeiras à classe dos prefeitos afetam os pleitos reivindicatórios dos municípios e não conseguem envolver a comunidade nas campanhas para obtenção de mais verbas. Gera-se também uma má vontade dos contribuintes em pagar seus impostos e por isso o fazem muito contrariados. Porque há os casos em que, quando não é o roubo clássico, é a inoperância e o marasmo administrativos, o que é também uma maneira de roubar os munícipes.





