As demarches para eleição na Câmara
Se o que ocorre no âmbito do Congresso Nacional não fosse tão vinculado a interesses dos partidos e, individualmente, dos próprios parlamentares, a eleição do presidente da Câmara não teria grande importância. Mas vê-se que tal escolha mobiliza os deputados desde o começo do ano, mesmo em período de recesso, evidenciando que é mais importante para eles essa eleição, e tudo o que ela representará na continuidade, do que qualquer outra questão relevante para a nação. Nunca a comunidade parlamentar interessou-se tanto por uma causa como a de quem colocar no comando da Câmara. Não é em defesa de um eventual projeto nacional, ao qual um candidato a presidente da Casa estivesse vinculado, que a escolha se opera. A razão é puramente a conveniência logística de cada bancada e seus aliados de momento. Os interesses têm mão dupla na via entre o Palácio do Governo e o Palácio do Legislativo, porque ambos não respiram sem o exigênio da coexistência pacífica. Esse fluxo não passa pelas vias respiratórias do organismo nacional mas apenas pelos canais-tronco que vão da magna casa legislativa à esplanada onde se situam o palácio presidencial e os ministérios. À hora em que este Editorial era escrito não havia ainda uma decisão, mas óbvio que interessa ao governo a escolha do petista Luiz Eduardo Greenhalgh. Porque, com ele na função, a entrada em pauta, ou não, de questões de interesse governamental, contará com ventos favoráveis e ocorrerá velozmente, ou em sentido contrário se isto for de conveniência do Palácio. O presidente Lula se beneficia da escolha de Greenhalgh, por razão natural: a garantia do companheiro em tudo o que estiver ao alcance dele atender, e a vantagem de não ter de enfrentar contrários, um caminho mais difícil e que implica em maiores concessões. Não que estas estejam agora dispensadas, mas é certo que o governo consolida posição se colocar lá outro petista. Se a vontade é fazer bom governo e implementar reformas, tanto melhor quando há o favorecimento dos pares e aliados; se for para manter as coisas como estão e emitir Medidas Provisórias elevando impostos (e o ano parlamentar começa com uma dessas para discutir), então melhor é que impere a oposição. Sem apoio na base parlamentar um presidente não exerce a governabilidade, mas uma ditadura governamental em tempos de democracia, como o governo petista às vezes intenta sobretudo quando abusa da gana centralizadora de renda, criando e aumentando impostos então será melhor robustecer a força policiadora da oposição para que exerça controle sobre ele, sem facilitações licenciosas. Nestes dois anos o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não enviou ao Congresso projeto algum de salvação nacional e esperava-se isto, ante tantas promessas e acenos de campanha não se sabendo então até onde será benéfico conceder-lhe mais salvaguardas, como o benefício de contar, novamente, com um companheiro na presidência da Câmara Federal.





