Se as organizações não-governamentais externas são pródigas em fazer críticas ao Brasil e nem sempre os fatos são como elas narram, justificam-se quando condenam as condições desumanas de certas categorias de trabalho neste país. Caso dos cortadores de cana, citados pela Anistia Internacional recentemente e enfocados pela repercussão da corrida para a produção de etanol. Porque se os canavieiros e os produtores de açúcar e combustível à base de cana irão ganhar fortunas, conforme a perspectiva indica, isto não poderá ser à custa de trabalho forçado e mal remunerado daqueles trabalhadores.
Condenando também a violência urbana no Brasil, a Anistia - que é uma valiosa instituição policiadora dos comportamentos humanos e defensora de mais civilizadas políticas sociais - já denunciou casos de exploração praticados por quase 200 empresas de 16 Estados brasileiros, isto incluindo São Paulo, que, por ser o mais poderoso é também o mais visível, reúne o maior número de obreiros, tanto na indústria como na agricultura e nas demais atividades. Se as autoridades da República estão interessadas em fomentar a produção de biocombustíveis (por ora de cana, em maior escala), deverão voltar os olhos também para outro aspecto importante, que é a presença do homem nesse processo. Ganhar dinheiro com pessoas trabalhando até 10 horas diárias, excedendo-se para aumentar os ganhos (porque o salário regular é baixo), é uma desumanidade. Certamente que o progresso que todos desejam não deverá ser a esse custo. Porque se o etanol, agora em grande moda, irá enriquecer mais gente, terá de ser generoso também com esses trabalhadores braçais.
Será de valor discutível os canavieiros e usineiros ganharem muito dinheiro com o etanol e o Brasil melhorar seu meio ambiente e até exportar esse combustível, se persistir a poluição representada pela exploração dos obreiros que atuam nos canaviais e dentro das usinas. Todo o avanço tecnológico e a melhoria das condições econômicas não podem servir apenas à causa de determinados grupos sociais se a máquina operária feita de carne e osso, que opera no trabalho bruto, não for contemplada por salário justo e condições operacionais decentes. O advento do etanol tem de ser observado também sob esta ótica. E não porque a Anistia Internacional, ONGs e governos de outros países estão atentos às formas como é produzido aquilo que nos compram, mas porque isto deve ser uma obrigação humanitária.

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