Mesmo afastada do vínculo de outrora com o Estado, a Igreja Católica continuou assumindo postura política diante dos acontecimentos do mundo. Não faltam opiniões, dentro do próprio meio, que desaprovam esta derivação para o temporal, supostamente em prejuizo do espiritual. E também no mesmo círculo católico existem os que condenam certos mandamentos da Igreja quanto a questões sociais, como o aborto, a ex-comunhão, a não-ministração dos sacramentos aos desquitados, o casamento entre homossexuais, o uso de preservativos anticoncepcionais e outras práticas.
Mas certamente o papa Bento XVI excede-se ao condenar o uso de preservativos, e suas recentes declarações a respeito geraram a reação contrária de governos europeus e da agência da ONU responsável pelas questões relacionadas com a prevenção da aids.
Em seu giro pela África, o Pontífice - conhecido pelo seu conservadorismo - declarou que a distribuição de preservativos, ao invés de combater a doença, mais a aumenta. A aids já matou mais de 25 milhões de africanos desde o início dos anos 80 e hoje existem outros 20 milhões deles com a doença. Este problema mundial move os governos, e enquanto a ciência e a medicina buscam amenizar com suas pesquisas o impacto do mal e encontrar uma vacina contra o virus, instituições distribuem os preservativos e admitem, com razão - porque estribados em números - que, graças a isso, conseguem diminuir o ritmo de propagação da moléstia. O Papa condena tais métodos mas não aponta soluções de contracepção, supondo-se que imagine a fórmula da abstenção sexual, porque mesmo casais legalmente casados (a aceitação da Igreja) podem não desejar mais filhos, e têm de prevenir-se.
Enquanto isto acontece, o presidente Barack Obama endossa declaração da ONU que pede a descriminalização do homossexualismo. Esse documento - assinado por 66 paises, incluindo o Brasil (que tem assumido posições ambíguas a respeito) - é apenas simbólico e sem aplicação obrigatória. Mas se soma às aberturas que vão acontecendo e contrariam posições da Igreja Católica, hoje congregando 1,2 bilhões de fiéis.
Sem criticar as leis canônicas - muitas das quais figuram mais no papel do que na prática dos próprios católicos, aí incluidos alguns segmentos dos quadros do clero - a posição papal, sem dúvida influente, pode prejudicar políticas de saúde pública relacionadas com a aids e levar mais pessoas à morte. Um paradoxo, quando a Igreja assume posição sistemática de defesa da vida ao posicionar-se contra o aborto.

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