O centenário de Barbosa Lima Sobrinho traz-me uma reflexão pouco generosa: a de que todas as pessoas especiais, como ele, deveriam sempre viver cem anos ou mais, e os canalhas serem natimortos.
Bobagem de cabeça quente, naturalmente, de quem está tentando trabalhar neste nosso Rio-40 graus. Não é à toa que o velho Barbosa foi comemorar o aniversário com a família em Itaipava...
Mas entre as coisas que Lima Sobrinho disse, em entrevista ao JB, poucos dias antes de chegar aos 100 anos, destaca-se a sua afirmação de que ‘‘tem horror à globalização’’.
Pois o centenário jornalista e acadêmico talvez não saiba que está em muito boa companhia. E internacional. Já há muita gente boa acusando a globalização de nada mais ser do que a última panacéia da moda, que - com a queda do império soviético - acabou surgindo com enorme força, para canalizar as atenções dos consumidores da imprensa noticiosa, antes distraídos pelos artifícios de causa-e-efeito maniqueístas entre os mundos ‘‘capitalista’’ e ‘‘comunista’’.
As vozes críticas, inicialmente tímidas, vindas principalmente da antiga ‘‘esquerda’’ órfã, começam a juntar-se outras de maior peso: o línguista e acadêmico Noam Chomsky, por exemplo, que esteve recentemente no Rio e em São Paulo para fazer conferências nas universidades, acusou seu país - os EUA - de defender o livre-comércio quando deseja vender e tornar-se protecionista quando se trata de comprar - principalmente as mercadorias do Terceiro Mundo. Chomsky sabe das coisas e é impiedoso quando se trata de mostrar como a mídia - especialmente em seu país - é capaz de cooptar de forma muito pouco crítica o discurso dos donos do poder - que, se aqui já são poderosos, imagine lá.
Outra poderosa voz crítica é a de Ignacio Ramonet, influente editor do mensário francês ‘‘Le Monde Diplomatique’’, que escreve, na edição de janeiro, que os antigos regimes totalitários tornaram-se, agora, regimes ‘‘globalitários’’ - utilizando-se de novos argumentos, pretensamente econômicos, para justificar mais controles sobre a vida e o trabalho das pessoas - dessa vez em escala mundial.
E Jerry Mander, um publicitário americano de San Francisco, que nos anos 60 converteu-se em ativista social, acaba de editar um livro, juntamente com Edward Goldsmith, presidente da Associação Ecológica da Inglaterra, de quase mil páginas - intitulado ‘‘Argumentos contra a Globalização’’ - contendo dezenas de ensaios e artigos assinados por escritores e intelectuais de quase todo o mundo. O principal argumento dos oponentes da globalização é o de que o que se pretende globalizar é um modelo econômico que não deu certo em nenhum lugar do mundo, pois é basicamente injusto, predatório e absurdo, pois pressupõe que os recursos naturais são inesgotáveis.

Os antigos
regimes totalitários
tornaram-se agora
‘globalitários’


Parece que estamos, então, no início de uma polêmica que, ao que tudo indica, deve durar bastante tempo. O que é muito saudável, pois até agora só os argumentos dos ‘‘globalizantes’’ vinham sendo ouvidos.
A curto prazo, não acredito que os países do Primeiro Mundo estejam preparados para atender ao reformulado convite de Voltaire, na voz dos críticos da globalização, para que se deixem as demais sociedades - em especial as que ainda não se ‘‘desenvolveram’’ - em paz para que cada uma cuide do próprio jardim. Afinal de contas, são eles que têm mais a ganhar com a implantação de um sistema político-econômico global hegemônico.
Mas sinto uma dificuldade principal para compartilhar do mesmo horror que Barbosa Lima tem em relação à globalização. É que, no caso deste nosso Brasil, onde o governo está sempre disposto a proteger a incompetência nacional dos supostos invasores externos, através de barreiras políticas, de reservas de mercado e outras armas do seu arsenal tecnoburocrata e centralizador, um pouco de globalização acaba não sendo inteiramente mau. Por enquanto - e com todo respeito - continuo achando que mais globalização, e não menos, para o Brasil é que é saudável.

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