As crises superpostas - André Stumpf
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de fevereiro de 1999
André Stumpf 
As crises, ao menos no Brasil, costumam ocorrer em dois tempos bem definidos. Um primeiro é o que já passou. Os economistas aproveitaram o ano de 1998 e cometeram todos os equívocos possíveis. Erraram do primeiro ao quinto, como se diz em linguagem de jogo-do-bicho. E terminaram entregando a gestão das finanças públicas nacionais aos técnicos do Fundo Monetário Internacional.
O Banco Central foi destinado a pessoas com larga experiência na especulação financeira internacional. A crise foi, portanto, privatizada. Ela e suas consequências. Os novos personagens, que já se movimentam com muito desembaraço por Brasília, não possuem compromissos políticos, nem vocação para entender, perceber ou compreender os problemas brasileiros. A responsabilidade deles é com os números. Bem entendido, números que agradem à matriz em Washington.
O segundo momento da crise começou anteontem. É a face política do descalabro econômico. Ano passado, é bom lembrar, foi o tempo de Copa do Mundo e de eleições gerais. O País funcionou muito pouco. De maio em diante, as atenções começaram a se voltar para a França e ali permaneceram até o último dia do torneio. Em seguida, tiveram início os trabalhos eleitorais. E o País foi tomado pelos discursos dos candidatos e as eternas promessas de campanha. O Congresso funcionou no princípio do ano e um pouco no final. O governo trabalhou sem oposição.
Este ano é diferente. Há um Congresso recém-empossado, novos governadores com fôlego e vontade de trabalhar. Ao lado disso, um governo antigo, pressionado pelos credores externos, sob o guante do Fundo Monetário Internacional. A capacidade de manobra é muito estreita. Quase nenhuma. E o dispositivo político do presidente, até agora, atende pelo nome do ministro Pimenta da Veiga, das Comunicações.
Bater boca com o governador de Minas pelos jornais não parece ser a posição mais adequada. Itamar Franco sabe que a credibilidade do presidente da República, segundo institutos de pesquisa de opinião, está em queda livre. Quanto mais ele provocar o chefe do governo, e dele obtiver respostas irritadas, mais pontos ganhará junto à população. É importante perceber que a crise política está apenas começando. Vai assumir sua verdadeira dimensão após a reunião dos governadores com o presidente da República, amanhã.
O governo federal sofreu e está sofrendo fortíssimo desgaste junto à opinião pública em consequência das hesitações, dos desmentidos frequentes e das medidas duríssimas que estão sendo tomadas contra os assalariados. A política de retaliações contra Minas Gerais e Rio Grande do Sul também encerra, em seu bojo, enorme risco de crise institucional. São Estados de economia forte, destino de pesados investimentos estrangeiros, que não podem, nem devem, ser tratados como assunto de segunda classe. Nem relegados ao arbítrio de funcionários de segundo escalão.
O potencial de crise política e institucional é muito elevado neste momento. Na área econômica, os problemas terminaram por fazer com que técnicos estrangeiros e brasileiros radicados no exterior assumissem o comando das operações. Na seara política o modelo é outro. É a trombada. É a briga. É o fim do caminho. Não é de bom alvitre ser arrogante diante da perspectiva de o País experimentar, a um só tempo, as crises econômica, política e institucional.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília


