As crianças cercadas pela Aids
Nos últimos cinco anos, o HIV/Aids mudou a paisagem das guerras, mais do que qualquer outro fator. Ao longo de todo o mundo, o HIV/Aids matou 3,8 milhões de crianças e deixou órfãs outras 13 milhões. Em muitas partes da África, ele é, agora, a principal ameaça para a sobrevivência humana: já morreram de Aids 18,8 milhões de africanos e em vários dos países mais afetados pela doença estima-se que a metade dos jovens atualmente com 15 anos morrerá por causa dessa enfermidade.
As caóticas e brutais circunstâncias da guerra agravam todos os fatores que alimentam a crise da doença. A guerra destrói famílias e comunidades, cria milhões de refugiados e coloca mulheres e crianças em grave perigo de agressão sexual ou de violações sistemáticas utilizadas para aterrorizar as forças adversárias. Destrói os serviços de saúde, que poderiam ser capazes de identificar as doenças associadas ao HIV/Aids ou impedir as transfusões de sangue que podem transmitir o vírus. E a guerra destrói os sistemas de educação, que poderiam ser capazes de ensinar a prevenção e de tornar mais lenta a difusão da doença.
A Aids contribui para a instabilidade política ao deixar órfãs milhões de crianças e matar professores, trabalhadores da saúde e outros funcionários públicos. A relação entre Aids e conflitos é complexa, mas, é evidente que exerce uma função de mútuo reforço. E ambos estão compostos de pobreza. Dos 17 países com mais de 100 mil crianças órfãs em razão da Aids, 13 estão em conflito ou à beira de uma emergência, e outros 13 são países pobres com pesadas dívidas. Em todo o mundo, os países em desenvolvimento suportam o peso de uma dívida de aproximadamente US$ 2 bilhões e, além disso, estas nações também representam 65% da carga do HIV/Aids.
Outro fator que acelera a disseminação do HIV/Aids durante os conflitos é o contato que necessariamente acontece entre as forças militares e a população civil. Em situações de conflito, os principais autores de abusos e exploração sexual são membros de forças ou de grupos armados. Além disso, os soldados são habitualmente homens sexualmente ativos que, provavelmente, buscam o sexo mercantilizado. Inclusive em épocas de paz, os soldados têm índices de doenças sexuais contagiosas de duas a cinco vezes maiores do que os da população civil. Durante as guerras, seus índices de infecção podem ser, inclusive, 50 vezes maiores dos que os dos civis.
Cerca de metade das pessoas com HIV/Aids são infectadas na idade de 25 anos e, provavelmente, morrem de Aids aos 35 anos, o que faz com que seus filhos sejam criados por avós ou se virem por conta própria em lares encabeçados por crianças. Mais de 10 milhões de pessoas que atualmente vivem com o vírus HIV têm entre 10 e 24 anos de idade. Pelo menos 50% de todas as novas infecções acontecem no grupo de idade entre os 10 e 24 anos, com 7 mil novas infecções por dia. Estas estatísticas ressaltam o quanto é imperativo incluir a prevenção e o aconselhamento sobre o HIV/Aids em todos os programas relacionados com a integração à sociedade dos jovens afetados pela guerra, especialmente as crianças ex-combatentes e refugiados.
Mais de 90% de todas as crianças menores de 15 anos infectados pelo vírus HIV começaram sua vida como bebês nascidos de mães HIV positivo. Estudos recentes indicam que a administração de medicamentos anti-retrovirais podem reduzir a transmissão do HIV no nascimento, mas, sem acesso a essas drogas, ou a outras intervenções, aproximadamente uma em cada três mulheres com HIV positivo grávidas passarão a doença aos seus filhos, seja durante a gravidez, no nascimento ou através da amamentação.
Em situações de conflito, as mulheres não têm outra opção a não ser a de amamentar. Em campos de refugiados, a água potável frequentemente é inacessível, de modo que o aleitamento é o método mais seguro para alimentar as crianças. Isso torna ainda mais clara a necessidade de as mulheres terem acesso aos exames e aos medicamentos. Atualmente não existe este acesso para as populações nos países subdesenvolvidos, inclusive em tempo de paz.
Deve-se seguir com energia, tanto em nível nacional quanto local, uma programação para prevenir e tratar o HIV/Aids. Não importa o quanto sejam difíceis as circunstâncias, o HIV/Aids deve ser enfrentado vigorosa e resolutamente. Até agora, a resposta tem sido tragicamente inadequada. Em 1998, somente US$ 300 milhões foram gastos pelos países doadores na luta contra a Aids. Estima-se que são necessários US$ 3 bilhões, a metade deles para atividades de prevenção e o restante para cuidados básicos, excluindo os medicamentos anti-retrovirais. Hoje em dia, nenhum país da África gasta mais de 1% de seu orçamento sanitário em HIV/Aids.
Os tratamentos com medicamentos tornam-se cada vez mais efetivos, mas, atualmente, apenas uma pequeníssima minoria nos países em desenvolvimento tem algum acesso a eles. E os estudos sobre a eficácia dos anti-retrovirais não são realizados em países afetados por guerras. Deve-se encontrar um caminho para reduzir espetacularmente o custo de todos os medicamentos úteis para combater a Aids nos países em desenvolvimento.
- GRAÇA MACHEL é ex-ministra da Educação de Moçambique e ex-primeira-dama de Moçambique e da África do Sul (IPS)





