Não podia haver nada mais condizente com a situação atual do Brasil do que a exposição das telas de Monet, inaugurada agora no Rio, com sua admirável pintura impressionista, da qual o pintor excluiu, deliberadamente, o preto e o cinzento.
Não é o que as autoridades econômicas do governo Fernando Henrique Cardoso fazem, a rigor, quando pintam o estado da economia do País e ignoram o buraco negro da crise social e da balança comercial, cujo déficit aumenta mês a mês, resistindo ao tratamento da ciência dos economistas brasileiros?
Trata-se, no entanto, de uma questão grave, que ameaça a perspectiva de sobrevivência do Plano Real e abala o sonho de FHC de reeleger-se por mais quatro anos de mandato, em 1998.
Além disso, o presidente da República teve duas frustrações sucessivas: o fracasso da tentativa de obter, para o Brasil, assento permanente no Conselho de Segurança da ONU; e a exclusão do Rio de Janeiro (pleito por ele avalizado) dentre as cidades pré-selecionadas para sediar a olimpíada do ano 2004, pelo motivo inquestionável da falta de condições sociais decentes, na antiga capital e no próprio País.
Apesar disso, pelo que a imprensa deixa transparecer, estimulado talvez pela visita do presidente Chirac ao Brasil, FHC estaria alimentando, hoje, a esperança de fazer o País ingressar, ainda sob seu governo (caso se reeleja), no seleto Grupo dos Sete, os países mais industrializados do mundo: Estados Unidos, França, Inglaterra, Canadá, Alemanha, Japão e Itália.
Não é que não seria bom que o Brasil fizesse parte do G-7, no qual os presidentes dos países industrializados se reúnem, anualmente, a fim de traçar diretrizes econômicas e políticas - eles garantem que não são ordens, mas apenas orientações - para o resto do mundo, ao qual o País pertence, atualmente.
A presença do Brasil no G-7 significaria desenvolvimento sustentável e redução das disparidades sociais que o caracterizam. O G-7, que se sobrepõe à ONU, baseia-se na defesa do dogma da abertura dos mercados nacionais e no controle monetarista da inflação. Tal dogma, obviamente, não é respeitado por todos os integrantes do grupo, em especial pelos associados ricos e poderosos, como os EUA, Japão e França, que protegem setores estratégicos de suas economias.
Talvez por ser ainda um não-membro, o Brasil ache que não pode nem deve desobedecer a essas regras e, por isso, vai vendendo seu patrimônio. Admitido no grupo, o País estaria em condições de exigir, como os demais sócios, que os outros façam o que o G-7 diz e não o que realmente faz. Bastaria, ali, continuar pintando o neoliberalismo, como se pinta a si mesmo, sem usar, na paleta da geopolítica, o preto e o cinza, tons marcantes na realidade cotidiana dos países que aceitam aquele ideário imposto pelos ricos.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília. Ruy Fabiano, que escreve regularmente neste espaço, está de licença.

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