As cidades latejam
As cidades já cresceram, já incharam, agora elas latejam. E neste sentido elas diferem pouco umas das outras. Seja Paris, Cairo, Cidade do México, São Paulo, elas têm problemas comuns. Em gradações diferentes, mas problemas comuns. O trânsito é caótico em qualquer uma, não existe infra-estrutura suficiente para atender as milhões de pessoas que se acotovelam dentro de seus limites, são organismos sempre em mutação desordenada que revelam disfunções perigosas para o conjunto e para as partes desse conjunto.
Em São Paulo, vira e mexe aparece alguma epidemia. Já tivemos de sarampo, catapora, meningite. Em Marselha, no mês passado, foi achado o vírus da poliomielite na água. A Europa está apavorada com a epidemia da vaca louca, que deixa as pessoas mortas-vivas. Até o Alain Ducasse, o cozinheiro mais estrelado da França, está pensando em tirar a carne do cardápio de seu restaurante.
As cidades latejam porque estão doentes. E o principal indício dessa doença, dessa infecção, é a falta de segurança. Por todo o canto as pessoas estão perplexas, apavoradas com a falta de segurança para coibir a violência. Um exemplo dessa contaminação geral é o que está acontecendo na periferia de Paris.
Até dez anos atrás, o banlieu era um lugar tranquilíssimo. Hoje, os que moram na periferia e nos subúrbios estão preocupados com a própria segurança porque a barra é pesada. Existem lugares onde espancar professores de escola secundária é apenas exercício para aliviar a tensão. Na estação de metrô de Roubaix, uma cidadezinha minúscula, Franck Tavernier, de 23 anos, foi morto a facadas por dois outros mais garotos ainda, de 13 e 16 anos de idade. Tavernier foi assassinado na frente da sua filha de 2 anos e seu enterro se transformou em um desfile contra a violência que reuniu mais de 2,5 mil pessoas.
O prefeito comunista de Chevilly-Larue, Guy Pettenati, junto com os prefeitos de mais outras duas cidades vizinhas, LHay-les-Roses e Villejuif, assinaram, em março, com o Estado, um contrato de segurança, para possibilitar que mais guardas pudessem atuar nessa região. Mas a situação só piorou. Aumentaram de forma alarmante os ataques ao patrimônio público e privado, os roubos, as ameaças e insultos aos cidadãos e a intimidação feita através de cães perigosos. O número de casos subiu 38,5% com relação ao ano passado. Os casos de violência, que antes ocupavam espaço apenas nos jornais populares, agora já têm destaque nos jornais nacionais mais importantes.
Em Paris haverá eleição para a prefeitura em março do ano que vem. E lá, como aqui durante a campanha eleitoral de setembro, está se discutindo a municipalização da Polícia, além de outras medidas que parecem copiadas dos programas dos nossos candidatos com relação à segurança.
Na cidade de Sorbiers mas poderia ser em Guarulhos ou Parada de Lucas é comum que grupos de adolescentes bloqueiem as ruas, para impedir automóveis e pessoas de passarem. São brigas de gangues que parecem confrontos de traficantes brasileiros. Por toda a Grande Paris, chamada de He-de-France, os traficantes circulam impunemente, segundo várias testemunhas citadas pelos jornais. E a lei do silêncio é imposta com severidade. As testemunhas de qualquer caso se negam a dar declarações à Polícia porque são ameaçadas pelos grupos que comandam as cidades. Os moradores também reclamam da falta de segurança nas escolas. Dentro e fora delas. Pois é comum professores apanharem e alunos ficarem expostos ao tráfico de drogas.
As autoridades da região parisiense estão chocadas. Tão abobalhadas como os nossos homens encarregados de tomar conta da segurança das grandes cidades, onde o tráfico já tem até sistema de monitoramento por televisão para ser alertado sobre os movimentos da Polícia nas suas zonas de influência, onde os candidatos das últimas eleições tiveram que pedir licença aos chefes locais para fazer campanha. E mais ainda: onde os traficantes determinam o toque de recolher para homenagear algum companheiro morto em combate.
Guardadas as proporções, a situação é semelhante porque tem a mesma origem: a falta da presença do Estado. As instituições não conseguem mais atuar onde a demanda é mais forte e onde as carências são acentuadas. E, se o Estado deixa vago o espaço, alguém ocupa.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo





