As chuvas de verão
Começa a se tornar rotina a publicação de fotos nas primeiras páginas dos jornais da tragédia urbana que têm sido as chuvas de verão nas grandes cidades brasileiras. O drama das enchentes já é uma realidade perversa, por exemplo, em São Paulo. As pessoas simplesmente não sabem o que fazer diante do estrago provocado pelos temporais (geralmente no final das tardes). A volta para casa tem se tornado um pesadelo, ainda correndo o risco, o cidadão, de chegar em casa e não encontrar luz elétrica, devido a algum colapso no abastecimento de energia.
Depois de um dia de trabalho, de suor, cansaço, metrô, ônibus, trânsito, barulho, corre-corre, responsabilidades, o paulistano (depois de esperar, às vezes, horas) chega em casa e tem de aguardar mais sabe-se Deus quanto tempo para tomar banho e esquecer o dia que passou. Esse quadro tem sido realidade para milhões de pessoas, especialmente os mais pobres, que sofrem as consequências das chuvas.
Chover deixou de ser uma bênção do céu, uma alegria porque a água, além de refrescar, alimenta a terra, propiciando a fecundidade das plantas. Chover virou sinônimo de apreensão, angústia e terror. Sabe-se que a chuva traz prejuízos materiais, alagamento, entupimento de bueiros, queda de árvores e fios, tombamento de carros, um Deus nos acuda! E a impressão que o paulistano vai tendo e que o problema se agrava a cada ano, sem perspectivas concretas de solução imediata ou a curto prazo, seja do governo A, B ou C, desse ou daquele partido.
O que temos visto, nessa área, são sempre medidas paliativas, que buscam atacar os efeitos e não as causas da problemática. Uma das razões para a aparente impotência diante de tudo isso, é que para corrigir de fato tão grave questão, seria necessário redesenhar e replanejar São Paulo, diminuindo, por exemplo, o volume de arranhas-céus e edifícios de concreto, casas com garagens e sem jardins, asfalto por toda a parte etc.
Isto é, a cidade está quase inteiramente impermeável. A chuva cai pela selva de pedra e a água não tem por onde escoar. Os governantes que construíram as marginais em torno do Rio Tietê não se deram conta de que suas várzeas poderiam ficar cheias com as águas dos temporais, inundando tudo e inviabilizando o tráfego na região.
A lógica da pressa em lucrar acabou fazendo de São Paulo uma cidade-cobaia. Foi possível lucrar muito, enquanto não pipocavam os problemas que hoje atormentam a população. Muitos governantes fizeram vista grossa pensando assim: Ah, quando a coisa estourar, já não estou mais por aqui. Que os governos da época se virem!
Governantes e empresários lucraram muito com essa lógica. A cidade foi se favelizando num ritmo espantoso, e verticalizando-se também. Tenha se presente que o que ocorre na capital de São Paulo ocorre nas grandes cidades brasileira.
Quem hoje proporia uma nova estética urbana a cidade, tendo que enfrentar ainda a poderosa pressão da gula imobiliária? Prédios são construídos, ruas são asfaltadas, a grande urbe continua se agigantando como selva de pedra. E então? O que fazer?
Precisaríamos de novos jardins, muitos jardins e praças, ruas com paralelepípedos, casas em vez de prédios, jardins em vez de quintais cimentados. E quem teria hoje força para reverter essa cultura do cimento?
Torçamos que as ONGs, os ambientalistas, os empresários sensíveis à causa ecológica tenham força para propor aos governantes uma São Paulo com um desenvolvimento verdadeiramente sustentável. Que a avidez pelo lucro seja substituída pela valorização do ser humano e a afirmação de melhorias nas condições de vida para todos os seus habitantes.
- VALMOR BOLAN é Doutor em Sociologia e diretor de instituição de ensino em São Caetano do Sul
[email protected]





