As chances de Ciro Gomes - Gaudêncio Torquato
As chances de Ciro Gomes
Gaudêncio TorquatoÉ bom começar a apostar fichas em Ciro Gomes(PPS). Trata-se de um perfil político em processo de crescimento e consolidação de imagem. Seu potencial é maior que o lado negativo de sua identidade política. O desgaste que faz profundos buracos nas imagens dos grandes partidos e de suas principais lideranças, comprometidas com a desorganização social e o sucateamento do setor produtivo do País, contribui para enquadrar a candidatura no figurino de 2002. No longo tempo que terá pela frente, ele poderá aumentar a visibilidade, mobilizar cenários sociais, a partir das cidades médias e dos grandes centros, adensar o tom crítico de sua peroração com enfoques sérios e responsáveis, livrar-se de alguns cacoetes e termos chulos de sua fala e abrir uma esteira de cooptação por toda parte.
Ciro Gomes está se beneficiando da caótica moldura da crise. Estados quebrados, municípios falidos, parque de serviços sociais deteriorado, indústria desmotivada, setor agrícola insolvente, desemprego exorbitante, violência galopante, seca em regiões do Nordeste, reforma tributária em estágio de impasse, porque ninguém quer perder, reforma do Judiciário em ritmo lento, população descrente, presidente Fernando Henrique cada vez mais isolado, partidos políticos apavorados com a impopularidade do governo e já iniciando um processo de afastamento essa é a moldura. Mais que outros oposicionistas, Ciro Gomes ganha na corrida para ficar na linha de frente de combate à crise. Por quê?
Primeiro, porque esse paulista de nascimento e cearense de adoção tem um discurso mais consistente que o petista Lula e seus companheiros. Possui um denso discurso, expressa com fluidez o pensamento, exibindo apreciável eloquência, junta conhecimento de teoria econômica com sociologia política e, além disso, está passando para o balão de formação de opinião a idéia de que não mais lhe atrai o canto mavioso de tucanos que desejam reconduzi-lo à floresta planaltina, onde o príncipe Fernando Henrique se encastela. Ou seja, a dureza da planície lhe parece mais segura que os louros do Planalto.
O PT de Lula, o PDT de Brizola e o PSB de Arraes, por seu lado, parecem imobilizados na prisão bolorenta construída pelos perfis de seus caciques. Três velhos guerreiros, três discursos recorrentes, mesmo diagnóstico, mesma silabação, mesmas exclamações, um cansaço só. Ciro Gomes rompe a textura da velha semelhança. Atualizado, vitaminado com o sangue de uma experiência como ministro da Fazenda, sabe lidar com números da realidade, e vai além, indicando caminhos, sugerindo soluções, abrindo um novo repertório. Ademais, a meia idade aglutina dois fatores importantes no perfil adequado para o momento político: o ímpeto do jovem e a experiência do adulto.
Em três anos e meio, Ciro Gomes pode se fazer mais conhecido no País e ganhar a confiança de setores que ainda lhe fazem restrições. O erro maior está nos exageros de uma fala que, por vezes, extrapola o território da polidez, chegando até ser mal educada. Como persegue o posto mais avançado da República, o de presidente, deve saber que a liturgia impõe posturas e comportamentos compatíveis com o nível do cargo. A exacerbação, possivelmente necessária, em certo momento, para furar a espessa camada da mídia, acaba impregando o perfil com a tintura quixotesca da irresponsabilidade.
O horizonte de 2002 está muito distante. Fernando Henrique até poderá melhorar sua posição no ranking do prestígio. Mas será tarefa quase impossível salvar o conceito de um partido de vestais, elitistas, olimpianos (deuses do Olimpo), caciques e muristas (tíbios em cima do muro), como é o PSDB. Se perder a eleição, o partido se dissolverá, porque não tem capilaridade social. Por isso, os velhos PMDB e PFL terão, ainda, muita influência na disputa, até porque contarão com grandes espaços na mídia. A movimentação de Ciro Gomes deverá levar em consideração o desenho de uma campanha no que diz respeito à visibilidade eleitoral. O discurso, ele já tem. Precisa arrumar o resto.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político-eleitoral
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