Há uma formidável chance do candidato de um bloco de centro esquerda, formado pelas oposições, vencer o pleito presidencial de 2002. Para tanto, uma condição se faz necessária: a integração das forças do PT, PSB, PPS, PC do B e até setores do PMDB, particularmente a facção mineira. Os primeiros passos dados nessa direção têm a chancela do presidente do PT, José Dirceu, do presidenciável Ciro Gomes e do governador de Minas, Itamar Franco, com a aprovação de Leonel Brizola e Arraes.
A questão é esta: se não houver união das forças oposicionistas, o candidato único da situação poderá levar a melhor logo no primeiro turno. É claro que este desenho de sucesso da situação tem as cores de um país estável, em crescimento e com a ordem social razoavelmente administrada.
As oposições começam a mexer as pedras do tabuleiro de 2002 convictas de que nunca estiveram tão próximas de uma vitória. A convicção parte de algumas evidências: o pulmão social do País está fragilmente oxigenado; crescem as insatisfações das classes médias, revoltadas com a desorganização dos serviços públicos e privados, a violência e a impunidade; os cinturões periféricos dos grandes centros expandem o desfile de uma cosmética de miséria; o corpo produtivo, muito machucado, ainda se queixa da extrema desnacionalização de algumas de suas partes importantes; a política econômica, afinada pelo diapasão do FMI, canta uma melodia acentuadamente monetarista; os balcões do Planalto continuam trocando e vendendo mercadorias que, aos olhos de pólos irradiadores de opinião, emporcalham a administração pública; um sentimento de que as coisas precisam mudar invade os corações e a emoção acaba extravasando para a cabeça, fertilizando o terreno da racionalidade. Esses contornos ajudam um candidato de oposição.
Não se deve negar ao governador Itamar Franco a capacidade de saber interpretar esses contornos. Por isso, continua firme no cenário institucional, apesar dos problemas que enfrenta no governo de Minas. Ele acerta no foco do discurso quando ergue a bandeira de um nacionalismo que mexe com o orgulho pátrio, com a altanaria de setores que repudiam a venda de nossas empresas na bacia das almas, e acaba sendo o ponto de confluência de emoções e expectativas. Ciro Gomes é outro que pega esse imenso bonde, com a vantagem de poder correr o País, em uma peregrinação regada a discursos inflamados, estatísticas retumbantes e conceitos agudos sobre a realidade brasileira.
Lula, que detém, hoje, o maior índice de intenção de votos (cerca de 30%), é carismático, mas, infelizmente, não tem sabido administrar o patrimônio que o povo lhe confere. Comete erros de análise, de conceito e de operação política. Parece não ter se atualizado sobre o sistema de valores que permeia as decisões sociais e não acompanha o ritmo de mudanças. Não dá para crer, por exemplo, em um candidato que continua a fazer loas ‘‘à democracia cubana’’, a qual justifica por ter Cuba um partido orgânico e representativo da coletividade.
Ou seja, no momento em que mais se quer ver um Lula incorporado à dinâmica social, emerge o velho perfil do ‘‘revolucionário’’ com intenções de mudar, abruptamente, o modelo econômico, quiçá a fisionomia institucional. Pode-se admirar alguns programas cubanos (saúde, esportes), mas não a configuração institucional. Por isso, esse líder, um dos homens públicos de maior respeitabilidade no País, bate sempre no teto histórico dos 30% de intenção de voto, fruto da rejeição (e medo) que provoca.
Ciro já disse que retira a candidatura em prol de um nome comum às oposições. Itamar aceita a idéia e, claro, aposta no próprio nome. Mas será difícil ao PT aceitar um nome que não seja o indicado pelo partido. E Lula é a maior referência. Se quiser ser candidato, ninguém o impedirá. Poderá até ser o candidato único das oposições. Ganharia? Bom, o maior obstáculo de Lula é ele mesmo. Mas o grande líder do PT parece não querer respirar o espírito do tempo. A humildade, que é a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos, está se despregando de Lula. Ele parece ter se embriagado com a fama. E quanto mais embriagado com ela, mais intoxicado fica.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário em São Paulo e consultor político
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