As bordas da Serra do Mar
Joel Samways Neto
O processo de industrialização do Paraná pode ser a grande marca do atual governo estadual. As indústrias estão aí. O ‘‘anel de integração’’, também. Aliás, essa era uma promessa de campanha, parte das propostas do então candidato do PDT.
É sempre assim. Cada governante busca sua síntese, o pedal de apoio do discurso, algo de principal para ser lembrado pela posteridade. Uns falam da usina, outros falam da rodovia, ou das casas populares, são as tais grandes obras. Lerner será lembrado como o governador que trouxe as empresas estrangeiras para o Estado. Se será uma ‘‘grande obra’’, ou não, só o futuro - de longo prazo - para dizer. Há claro, grandes expectativas em relação às indústrias que estão chegando, com seus empregos diretos e indiretos, com seus dólares novos de investimento. Todavia, os próximos cinco anos talvez sejam pouco tempo para avaliar. (No mínimo, a ‘‘grande obra’’ lernista terá sido uma grande aposta - na reeleição, única chance de o autor colher alguns frutos de suas idéias.)
Obviamente, o governo estadual não está fazendo apenas isso. Nenhum governo faz, durante o mandato, apenas uma obra. Porque há secretarias de Estado, há órgãos de Administração Pública, há atribuições, competências, ditadas pela lei, a serem desincumbidas pelos servidores públicos. E o governador vai destinando e liberando os recursos necessários à consecução daquelas políticas públicas prometidas, ou que houver por bem concretizar. Portanto, é exagero oposicionista a afirmação de que este ou aquele governo ‘‘não fez nada’’.
Recentemente, o governo Jaime Lerner foi cobrado na área de segurança pública. A criminalidade exacerbou demais, a população estava prestes a entrar em pânico. Então o governador, devidamente questionado, protestado, pela imprensa (inclusive pela dita ‘‘não-chantagista’’), veio dar satisfação ao povo. Pôs os policiais na rua, tirando das confortáveis poltronas da burocracia cerca de um terço do efetivo da Corporação. Na baila das discussões tem havido de tudo, da restauração dos módulos policiais (utilíssimos, e que foram desativados, segundo disseram, porque a estratégia policial militar estaria exigindo 35 policiais por módulo - enquanto os distritos da polícia civil às vezes trabalham até com quatro) ao aumento do efetivo. Isso porque, disse o governador, o cidadão precisa ter, além de prestado o serviço de segurança, a ‘‘sensação de segurança’’. Pois é, há setores nos quais o governo precisa estar presente.
Aproveitando a deixa da tal ‘‘sensação’’, como anda a política ambiental do Estado do Paraná? Cabisbaixa e genuflexa diante dos projetos de construção das referidas indústrias estrangeiras? Claro que não é só ali, na confecção dos famigerados relatórios de impacto sobre o ambiente que o serviço público de proteção ecológica tem de aparecer. Mas o paranaense, entretanto, ao olhar para a Serra do Mar, por exemplo, tem a nítida ‘‘sensação’’ de que estava faltando governo por lá. Sim, cada governo de acordo com sua respectiva esfera de atuação, sua circunscrição administrativa (seja municipal, seja estadual, seja federal).
Seja lá quem for o responsável pela guarda e proteção da nossa Serra do Mar está faltando com suas obrigações. Aqui, aos arredores de Curitiba, logo, logo, não sobrará nem o Anhangava. As pedreiras estão roendo essa serra pelas bordas! Espere aí! A Serra do Mar não é patrimônio ecológico, regularmente tombado, protegido pelo Poder Público, um território repleto de restrições e proibições? Se for, alguma coisa está errada. As crateras da terra estão praticamente acabando com lugares antigamente belíssimos, como é o caso da Borda do Campo. Explosões, máquinas e caminhões, a exploração das rochas não para. Aonde está o Ministério Público o órgão que tem a missão constitucional de defender o interesse coletivo, inclusive nas questões ambientais? Aonde está o Conselho Estadual do Meio Ambiente? E as organizações não-governamentais, como a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem (SPVS)?
Será possível que o governo estadual tenha tantos assessores especialistas em economia, para lhe garantir êxito na industrialização do Paraná, e nenhum especialista em ecologia? Ou nenhum sociólogo, ou psicólogo social, capaz de dizer ao governador que a criminalidade também pode estar aumentando por causa da absurda agressão à natureza? Ou será que a classe dirigente considera frescura essas indagações?
A continuar o abandono da Serra do Mar, no Paraná, os governantes serão lembrados por outras grandes ‘‘marcas’’ - na verdade, grandes cicatrizes e mutilações no ecossistema.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná.

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