As barreiras mundiais
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de março de 1997
Rubem Azevedo Lima 
Foi patético: o presidente Fernando Henrique Cardoso queixou-se ao presidente francês, Jacques Chirac, das barreiras que os países europeus criam aos produtos brasileiros e aos da América do Sul, em geral, e do Mercosul, em particular.
Provavelmente porque noblesse oblige, Chirac ouviu a queixa com discrição, mas poderia, se não estivesse diante de um bom cliente comercial da França, invertê-la. Por que o Brasil, nos casos em que se sente prejudicado pelas barreiras comerciais de outros países, não estabelece os mesmos obstáculos em relação aos produtos daqueles que dificultam as importações de artigos brasileiros?
Não era talvez hora de criar problemas. Se fosse o caso, Chirac lembraria ao presidente FHC que a própria França defende, por exemplo, suas estatais estratégicas mas não se recusa a comprar as empresas rentáveis de outros Estados. Foi, aliás, o que aconteceu com a compra da Light, do Rio de Janeiro, pela Eléctricité de France.
Bons negócios costumam ser bons quando resultam proveitosos para as partes que os fazem. Se uma parte, por incompetência ou por qualquer motivo - como entender que firmar qualquer negócio é imperativo do moderno comércio mundial, paciência. Quem perder muito com isso, perdeu; quem ganhou muito, ganhou. Reclamar, mantendo-se reverente diante do mercado, com certeza não resolve o problema da acumulação de prejuízos pelos países em desenvolvimento ou pobres.
Muitos países liberam as importações de artigos de luxo, supérfluos, por não saberem ou não quererem resistir à pressão do consumismo hedonista ou dos grupos importadores. Todos sabem, no entanto, que as importações desvairadas destroem empregos e fazem crescer, além de limites razoáveis, o déficit da balança comercial.
O Brasil não quer criar embaraços alfandegários a tais mercadorias, pelo temor de retaliações? Tudo bem. Por que não cria, no imposto de renda, adicional para os detentores de bens importados de fácil controle, como automóveis de luxo, jatinhos, lanchas, iates etc?
O curioso, nas negociações do comércio internacional, é que a regra da retaliação é imposta pelo pequeno grupo de países ricos contra o resto do mundo. Além disso, os dispositivos constantes de acordos multilaterias, como os da Organização Mundial de Comércio, não valem nos países que os assinam, quando estes entendem que tais normas contrariam seus interesses. Os Estados Unidos argumentam, por exemplo, que não aceitam submeter a legislação do povo americano a dos outros países. Nesse caso, as justas queixas do presidente Fernando Henrique lembram, de certo modo, as da oposição brasileira, que muitas vezes tem razão, mas nada consegue em face da auto-suficiência política do governo FHC, baseada no peso de seu rolo compressor no Congresso. Cada rolo compressor - é a lição que o presidente deve ter aprendido - tem seu sistema de poder e de ação.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília. Ruy Fabiano, que escreve regularmente neste espaço, está de licença.


