A caravana do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra do Paraná finalmente chega a Curitiba. Desde que o grupo iniciou a sua marcha, a opinião pública tem sido mobilizada para a possibilidade ou não de uma audiência dos manifestantes com o governador Jaime Lerner e para os problemas de infra-estrutura na acomodação dos sem-terra. Os aspectos secundários dessa manifestação ocuparam um espaço que deveria estar servindo para aprofundar a discussão sobre o problema do uso da terra em nosso país.
Apesar das dimensões continentais, o Brasil sempre apresentou problemas no que se refere à distribuição de suas terras e à eficiente exploração das mesmas. Esse é um problema social que vem se agravando e que só será solucionado a partir da união de todos os agentes envolvidos no processo. Gerações têm se dedicado anos e anos, sem desânimo, ao amanho do chão para ver muitas vezes o seu sonho de prosperidade ser frustrado, ora pela inclemência do tempo, ora pelos burocratas de gravata ou pelos especuladores das bolsas internacionais.
Hoje, porém, a ameaça das invasões vem a desanimar as pessoas que se dedicam à agricultura, ao mesmo tempo que derruba o valor das propriedades rurais e eleva os custos operacionais.
Por outro lado, a globalização da economia, que tem promovido o crescimento de diversos setores e impulsionado a competitividade e a qualidade de produtos e serviços, demonstrou ser uma armadilha fatal para a agricultura.
A abertura do mercado brasileiro para a importação de algodão, por exemplo, já deixou um saldo de 250 mil trabalhadores rurais desempregados em nosso Estado. A importação em larga escala de laticínios dos países do Mercosul também tem reduzido a oferta de trabalho nos campos brasileiros. O Brasil superou os asiáticos e tornou-se o maior importador de arroz do mundo. A maior parte de produção de feijão da Argentina está sendo importada pelo Brasil, fazendo que os nossos trabalhadores rurais sem terra sejam hoje trabalhadores rurais sem terra e sem emprego. A sociedade brasileira precisa encontrar uma solução para desarmar essa armadilha. Caso contrário, seremos todos vítimas desse processo, que está promovendo tensão social no campo e inchaço dos grandes centros urbanos com um êxodo rural incontrolável.
Entretanto, a solução não está na ocupação das terra de forma indiscriminada. Os líderes do MST, que exigem das autoridades governamentais respeito ao princípio constitucional da igualdade, têm que respeitar o princípio do direito à propriedade. Ao contrário de viabilizar uma solução mais efetiva para o problema dos sem-terra, esta forma de atuação distancia as autoridades governamentais e os proprietários rurais da união necessária para enfrentar essa questão. Afinal, a quem serve a subversão da ordem pública?
Temos exemplos claros de que a simples ocupação de terras só gera tensão e conflito. O setor público, a iniciativa privada e os trabalhadores rurais precisam encontrar caminhos que viabilizem um eficiente uso da terra. Não podemos transformar nossas áreas agricultáveis em meros depósitos de pessoas sem condições de produzir.
A chegada dos trabalhadores sem-terra a Curitiba deve representar o início de um debate público efetivo sobre o problema do campo para o Paraná e o Brasil. Não podemos simplesmente assistir à caravana passar. Sabemos que a simples posse da terra não resolve os problemas dos agricultores. São igualmente indispensáveis as sementes, os corretivos de solo, inseticidas, equipamentos agrícolas, orientação técnica e condições de comercialização das safras.
Mais ainda: para não ficarmos à mercê dos ciclos e das manobras especulativas, é necessária a industrialização da produção rural, preferencialmente junto às áreas de produção. A complementação das cadeias produtivas no interior do Estado é fundamental para se agregar valor à nossa produção e, gerando empregos distribuindo riquezas no interior, contribuir para uma repartição mais equitativa da renda. Isto sim constituirá uma verdadeira reforma agrária, cuja implementação é urgente e deve merecer o esforço conjunto de todos nós, empresários, trabalhadores e governantes,
Este é um desafio para todos os brasileiros.

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