Londrina recebeu nestes dias a proposta de casamento de um jovem pretendente incomum que tem sido acusado de uma aparência incomum e, por isso, suspeita. Ele certamente não é o príncipe encantado que a cidade esperava, mas quem sabe caso receba um beijo dos eleitores venha a sê-lo. As urnas dirão.

E quem asseverou que as aparências enganam? Julgar pelas aparências é o que nos mantêm vivos. São elas que nos permitem evitar comer um queijo realmente podre e também comer aqueles bons que têm o propósito italiano de estarem putrefatos, como um Casu marzu da Sardenha. São por elas, as aparências, que sabemos da beleza de uma orquídea e de uma jaguatirica. São elas que nos fazem suspeitar de um assalto à meia-noite e de um romance também à meia-noite. Aparências nos salvam a todo o momento e como não levá-las em conta?

Um dos candidatos à Prefeitura de Londrina tornou-se o mais recente "best seller" das redes sociais por sua aparência inesperada. Não pelo fato de ter aparecido primeiro, mas por causar espanto. O espanto por si não determina a qualidade do espanto. Um pedido de casamento é sempre um grande espanto para as senhoritas, porém se o tipo é seu pai, aí temos um bruto espanto.

Foi Dostoievski que famosamente asseverou em "O Idiota" que a beleza salvaria o mundo. O verbo no futuro do pretérito serve bem porque até a beleza agora está sob suspeita. As aparências não falam mais por si, o bom senso caiu pelas beiradas como o bom terno ultimamente. Até mesmo o cético de Nova York, Thomas Nagel, tem apelado para esta rara virtude do bom senso. Talvez, este seria um fenômeno meramente kantiano.

A política jamais será somente aparências. Nem aquelas do horário eleitoral televisivo, do colorido "santinho", do carro de som e da criança que chora no colo do algoz. Jamais. Agora a nova política, a política da tolerância e do progresso, será a política das intenções. Será aquela de dar cegos créditos a jargões cansados e falsos do tipo "temos de dominar e conquistar a política para (paradoxalmente) distribuí-la ao verdadeiro povo". A nova política terá de ser feita, segundo aqueles que odeiam as aparências, pelo seguro subjetivismo de quem mandará na sua vida.

Política assim centrada na aparente fraqueza de alguém que aparenta não desejar se submeter à cultura existente se mostra (na aparência!) a política mais perigosa que há. Pois quando um pretendente quer reconfigurar a noiva para somente então esposar-se com ela, ele não quer se casar com ela, mas sim consigo mesmo, pois é a sua imagem projetada que deseja e não o outro pelo outro. Não há espaço para diálogo e contradições. Quando uma juventude sai por aí anunciando que tudo está errado e tem de ser feito a seu modo, não vemos uma boa política, mas sim a vontade de adequar o povo ao candidato e não o candidato ao povo. Isso chama-se tirania. E justamente aquilo que ele acusa é o que acaba praticando.

Soube já de um rei hebreu que resolveu ouvir a juventude em vez dos anciãos que acabou rachando uma nação coesa em dois reinos. O motivo fora o mesmo que esta juventude anseia: aumentar os impostos. O problema da juventude, e me incluo nela, é que há poucas provações na vida e muita ansiedade. Não foram testados, tentados, provocados e machucados. Há pouca tarimba e é por isso que se alardeia que "a política não deve ser técnica" ao mesmo tempo em que se deve contratar os melhores especialistas – esperamos que não sejam técnicos, mas muito intuitivos. Há muito desejo de progredir e pouco de conservar. A política não deve ser feita só de intenções declaradas, mas de prudência, coisa rara na juventude.

Insto o povo londrinense a não deixar-se intimidar por um discurso que acusa o próprio senso comum do povo que elege. Se "todo poder emana do povo", como reza nossa Constituição Federal, que ele seja emanado do povo e não de indivíduos. Insto o povo londrinense a acreditar nas aparências e também ir além delas. Devemos ver as coisas como são, pois de boas intenções já sabemos o bastante.
Quando as aparências aparentam nos enganar, bastar ver além delas e ouvir que elas tinham razão. Um amigo me lembrou esses dias do querido Oscar Wilde, que frequentemente tinha razão. Disse ele, "só as pessoas muito superficiais não levam em conta as aparências". É por este motivo que insto: não cegue os olhos que Deus lhe deu.

BERNARDO PIRES KÜSTER é comunicador, ensaísta e tradutor em Londrina

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