O povo brasileiro é pródigo em produzir e enaltecer salvadores para as mazelas da Pátria, especialmente quando se trata de eleger um líder capaz de curar as doenças sistêmicas que sempre assolaram a nossa imensa e pujante nação. Na nossa recente história de regime democrático, nós fomos às urnas em 1989 para decidir entre um candidato do PT (esquerda revolucionária), que recebeu o apoio majoritário da classe artística e intelectual, dos sindicatos e dos movimentos sociais organizados (como o MST), e um candidato do PRN (direita conservadora), apoiado pela classe de empresários, dos meios de comunicação e dos grandes latifundiários.

O candidato vencedor repetia à exaustão seu plano de governar para os "descamisados" e os "pés descalços". Durante sua gestão, ele empreendeu, estrategicamente, um combate a alguns funcionários públicos que recebiam altos salários, tornando-se conhecido nacionalmente como: "Caçador de Marajás".

Graças a essa postura de "guardião da moral", o candidato fez uso de uma elaborada estratégia de marketing focada nos temas que mais preocupavam a população naquela época, fosse o combate à corrupção ou a vertiginosa taxa de inflação. Seu governo foi marcado pela implementação de um plano de abertura do mercado nacional às importações e pelo início de um programa nacional de desestatização.


Apesar de boa aceitação inicial, seu plano acabou por aprofundar a recessão econômica, corroborada pela extinção, em 1990, de milhares de postos de trabalho e uma inflação na casa dos 1.200% ao ano; junto a isso, denúncias de corrupção política envolvendo os ocupantes dos altos escalões do governo culminaram com um processo de impugnação de mandato (impeachment).

Hoje, às vésperas das eleições presidenciais de 2018, a história se repete para os eleitores brasileiros com a polarização de dois candidatos antagônicos: Luiz Inácio Lula da Silva, um ex-presidente processado, desmoralizado e condenado por escândalo de crimes de corrupção, de lavagem de dinheiro e de formação de quadrilha (PT); e Jair Bolsonaro, deputado federal (PSC-RJ) e capitão da reserva do Exército que pretende exterminar a corrupção; reprimir movimentos que atentem contra a moral e os bons costumes (homossexualismo); revogar o estatuto do desarmamento; eliminar as ações afirmativas (cotas raciais); implementar a castração química para estupradores; a utilização da tortura em casos de tráfico de drogas e de extorsão mediante sequestro; e a execução sumária (pena de morte) em casos de crimes premeditados.

Seja qual for a nossa escolha, o resultado está previsto na canção de Tunai com Sérgio Natureza, que foi consagrada na voz de Elis Regina: "As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam, porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões. Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele. Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser, não há mais forma de se aquecer, não há mais tempo de se esquentar, não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor".

RICARDO LAFFRANCHI é advogado em Londrina

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