Dad Squarisi
A Chechênia é um enigma. Tem nome esquisito. Parece palavrão. Poucos sabem onde fica. Ou quem mora lá. De uns tempos para cá, porém, ganhou as páginas dos jornais. Virou manchete. Foi tema de editoriais. Os noticiários da TV mostram cenas de bombardeios com a eficiência do Exército Vermelho. Levas de pessoas abandonam os lares em busca de abrigo seguro.
O que acontece por lá? A gente sabe por alto. A Chechênia goza do mesmo status político do Daguestão e da Inguchétia. É república autônoma que faz parte da Federação Russa (Moscou exerce soberania sobre ela). Quer seguir o exemplo da vizinha Geórgia. Dar o grito de independência ou morte.
Moscou reage. Acusa-a de apoiar os separatistas do Daguestão, que querem impor uma república islâmica no país. Para chegar lá, teriam promovido uma série de atentados que matou 300 pessoas na Rússia entre agosto e setembro. Resultado: Grozni, a capital chechena, sofre impiedosos ataques do Kremlim.
A violência da resposta levanta suspeitas. Há algo mais do que simples defesa territorial. A intromissão dos Estados Unidos confirma o pé atrás. (Tio Sam só compra brigas para defender grandes interesses). As relações entre Washington e Moscou parecem hostis. O presidente russo, Boris Ieltsin, fez ameaças: ‘‘Clinton’’, disse ele, ‘‘deve ter-se esquecido do que a Rússia é. Que tem um arsenal cheio de armas nucleares.’’
É. Existe algo mais no reino da Dinamarca. O mapa joga uma luzinha na questão. A Rússia é um dos cinco países da Bacia do Cáspio. Os outros são Azerbaijão, Cazaquistão, Irã e Turcomenistão. Lá, estão enterradas reservas estimadas em 200 bilhões de barris de petróleo e enorme volume de gás. Sabe o que isso significa? Só o Azerbaijão, o Cazaquistão e o Turcomenistão têm mais petróleo e gás que o golfo Pérsico.
A Chechênea fica no Cáucaso, região montanhosa que engloba o Sul da Rússia e países independentes como Geórgia e Azerbaijão. A área é estratégica para o Kremlim. Por ali passam oleodutos e gasodutos que ligam a Rússia ao Mar Negro, seguindo pelo Bósforo, na Turquia, até chegar ao Mar Mediterrâneo. Por isso Moscou defende a Chechênea com unhas e dentes. Perdê-la significa privar-se do controle das linhas de abastecimento de petróleo e gás da bacia do Mar Cáspio. Não é pouco.
Os Estados Unidos têm planos de desviar a rota do petróleo para territórios mais amigos. Encorajam a alternativa. A nova rota passaria por Azerbaijão, Geórgia e Turquia, mais confiáveis para o Ocidente. Está tudo acertado para dar início às obras. Sem a Chechênia e o Daguestão, inviabiliza-se a empreitada.
Moral da história: Moscou não está lutando pela integridade territorial da Federação Russa. Mas pelo petróleo, causa das grandes guerras modernas. O objetivo é manter o status quo. Ou seja, que o óleo do Cáucaso continue a fluir pelos canais existentes. Washington quer lhe puxar o tapete. É jeito de minar o império russo pelas bordas. No meio do tiroteio imperialista, fica o povo. A conta bate à porta dele.

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