ÁRVORES DE LONDRINA - Conservação é malfeita
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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
Com jeito manso de paulista nascido quase na divisa com Minas Gerais - no sugestivo município de São Sebastião da Grama -, o ex-chefe da extinta Divisão de Parques e Jardins da secretaria de Obras, Noé da Silva, não consegue esconder a tristeza ao falar da arborização atual de Londrina. Responsável pelo setor, nas décadas de 60, 70 e 80, lembra com nostalgia da antiga estrutura voltada à ampliação e manutenção das áreas verdes.
Com a garantia de que sua avaliação não seria divulgada como ''crítica pessoal'', concedeu a seguinte entrevista à Folha.
Como o senhor vê a arborização de Londrina atualmente?
A conservação é muito difícil, a arborização é muito grande e infelizmente a prefeitura não dispõe mais da equipe eficiente da antiga Divisão de Parques e Jardins da secretaria de Obras. Hoje, a estrutura é tercerizada e totalmente ineficiente para cumprir o desejo da população. Quando o cidadão liga pedindo poda, onde está o elemento especializado para fazer? Há mil e um tipos de poda, de educação (para crescimento) à limpeza da galhos. Onde está a estrutura para fazer o serviço?
Qual era a estrutura da antiga divisão?
Desde que assumi, na época do ex-prefeito Hosken de Novaes, sempre trabalhamos para aumentar o poder da Divisão. Chegamos a 380 servidores de carreira e aproximadamente 30 veículos próprios (atualmente a Sema conta com 30 servidores para poda de árvores. A capina/roçagem é terceirizada). Era uma equipe para cada área: produção de mudas no horto, plantio e conservação. Tínhamos seis veículos para fazer a irrigação; veículos para retirar os galhos; funcionários especializados em amolar ferramentas e consertar enxadas. Hoje, infelizmente, isso praticamente não existe mais.
A produtividade era maior que o serviço tercerizado atual?
Nós tínhamos microtratores com roçadeiras, que produziam 2,5 mil m2 de poda por hora. Hoje se trabalha com roçadeiras costais, mas sua produção é deficiente para Londrina. Naquela época, fechávamos um rodízio completo de manutenção da grama em toda a cidade a cada seis meses. E fazíamos isso o ano inteiro.
O senhor acha que há erradicação inadequada de árvores?
Perto da minha casa, foram cortadas muitas árvores, algumas do meu tempo, e nenhuma delas apresentava risco de cair. Foram cortadas não sei porquê. Isso é uma questão muito séria porque a árvore é uma coisa maravilhosa. Ela foi feita para formar e cumprir a função de produzir oxigênio para os seres vivos, e a eliminação do gás carbônico, que hoje está prejudicando a atmosfera.
Atualmente, se diz que as árvores plantadas décadas atrás eram muito grandes e inadequadas...
Não é essa a questão. As árvores se desenvolvem muito no norte do Paraná dado o solo profundo e fértil que temos. Agora, as raízes das árvores terminam na projeção da copa. Se conseguíssemos manter uma poda para não desenvolver tanto a copa, também conseguiríamos controlar a raiz. Com isso, iríamos evitar transtorno como a quebra de calçadas. Mas, infelizmente, sem pessoal isso não é possível.
Como o senhor vê as árvores de pequeno porte plantadas atualmente pela prefeitura?
Isso não é árvore. Estão plantando hibisco e murta... Hibisco nem arbusto é, mas, sim, semi-arbusto. Amanhã ou depois, uma árvore que tem uma área de 50 m2 a 60 m2, (é substituída por) um hibisco que dá de 2 m2 a 3 m2 de área... Qual a diferença do efeito entre essas árvores? Faça uma idéia do que vai acontecer com Londrina, daqui a 50 anos? Numa cidade como a nossa, com clima seco e quente, vai ficar insuportável de morar.


