Arte de engolir sapos
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 1997
Rubem Azevedo Lima 
O dia 26 de fevereiro talvez seja, politicamente, o mais aziago de todos nesses dois primeiros meses de 1997, para o presidente Fernando Henrique Cardoso. Nessa data, FHC foi o alvo de severas críticas do cardeal D. Lucas Neves e do historiador norte-americano Thomas Skidmore.
D. Lucas reclamou das queixas que o presidente fez ao papa João Paulo II, sobre o engajamento dos sacerdotes brasileiros, na procura de saídas para a crise agrária do Brasil. O presidente, nesse episódio, no entanto, voltou a repetir o que fizera em outras oportunidades, quando tratou de questões internas do País no exterior.
De resto, se nem a participação apartidária da Igreja consegue sensibilizar nossas autoridades para o drama dos sem-terra, sem ela, provavelmente, o presidente pode reeleger-se quantas vezes quiser, mas não realizará uma verdadeira reforma agrária no País.
O historiador Skidmore tocou noutra questão delicada, a que o próprio presidente deu origem: a conquista, na Câmara dos Deputados, do direito à reelegibilidade presidencial em 1998, por intermédio de pressões políticas e econômicas. Nesse caso, Skidmore endossou a opinião generalizada entre os brasileiros segundo a qual o presidente superestimou-se e convenceu os deputados, sempre dispostos a convencer-se, de que só ele, FHC, pode pôr o País nos eixos, em caráter definitivo.
O espírito cristão de D. Lucas não lhe permite, naturalmente, segundas intenções no que diz. Mas o historiador americano, com sua multiforme ironia, sugeriu até que o Brasil encomendasse ao cientista escocês, criador do clone de uma ovelha de úberes fartas, a criação também de uma duplicata perfeita do presidente FHC, para a solução de todos os problemas nacionais, sem novas reeleições, no futuro.
Como Skidmore sabe que o primeiro clone obtido em laboratório foi o de um sapo, há meia dúzia de anos, sua crítica pode, portanto, maliciosamente, estar antevendo para os brasileiros não o futuro de fartura do leite de ovelhas, mas a dieta indigesta desses anuros, caso se mantenha, por tempo indeterminado, a política econômica de FHC.
Por enquanto, quem está no que se costuma chamar de inferno zodiacal e na fase de engolir sapos, felizmente em sentido figurado, é o presidente FHC, cujo solipsismo político - a exageração da importância do prório eu - empanou sua imagem perante a comunidade de cientistas, juristas e intelectuais, no Brasil e no mundo. Pareceu comprovar-se, com isso, quão verdadeira é a sabedoria popular, para a qual um pássaro na mão é mais seguro do que dois a voarem. Um bom e respeitável mandato presidencial, concedido pelo povo nas urnas, é muito melhor, com certeza, do que dois ou três obtidos sabe Deus como, na antecâmera das câmaras, por mais legítimas que estas sejam.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília. Ruy Fabiano, que escreve regularmente neste espaço, está de licença.


