Tolerância zero! A expressão usada pelo personagem de um programa humorístico exibido nas noites de sábado, para justificar a explosão de mau humor, encontra ressonância junto à população. Mesmo em tom de brincadeira, muitos tentam justificar a dificuldade de suportar as diferenças. Hoje, Dia Internacional para a Tolerância, a Folha mostra a opinião de londrinenses que vêem cada dia mais curto o limite da tolerância nos acontecimentos cotidianos.
''A tolerância tem um lado bom ligado à nobreza, que é o respeito pelas diferenças, mas tem também um aspecto negativo quando começamos a tolerar tudo o que é ruim'', aponta o filósofo Otávio Martins Ribeiro. Para ele, aceitar situações como crimes bárbaros que acontecem com frequência e são vistos com indiferença, como tolerar a sujeira na rua, é algo muito ruim. ''Estamos ficando tolerantes demais'', diz.
Formado pela Associação Cultural Nova Acrópole, Ribeiro recorre ao pensamento do fundador da entidade, o argentino Jorge Angel Livraga, para falar sobre a tolerância. ''Nós não somos tão bons como achamos que somos e nem tão agradáveis como pensamos. Não somos os únicos que temos que tolerar os outros. Os outros também têm que nos tolerar''.
Mais importante que a tolerância, entende o filósofo e cirurgião dentista, é a arte da convivência. ''Ela (convivência) nos ensina a aprender a viver e a deixar que os outros vivam. Aprendemos que não somos os donos da verdade. É por isso que as religiões não conseguem conviver porque tentam se tolerar e não conviver harmonicamente'', exemplifica. Ele comenta que, em vez de buscar pontos comuns, lideranças religiosas se apegam às divergências. ''Tanto Jesus, como Buda, como outros mestres, pregaram o amor, a paz, o respeito, mas as pessoas continuam fazendo guerra se apegando às diferenças''.
Ribeiro acredita que a arte da convivência depende do enxergar no outro as virtudes. ''Todos temos virtudes e defeitos, todos erramos, mas costumamos ver apenas os defeitos nos outros'', diz. Ele cita como exemplo a Távola Redonda do Rei Arthur. ''Quando chegava um novo membro eles diziam: agora somos mais fortes pois temos uma virtude a mais''. E inscreviam na cadeira que seria ocupada pelo cavaleiro sua virtude.
Ribeiro acredita que através de formação, busca de um conhecimento superior, científico, artístico, político e religioso, é possível se chegar à uma convivência harmoniosa. ''A busca do conhecimento repercute no ser moral e ético. Faz agir da forma como você pensa'', acredita. ''Se você acha que deve ser justo, não pode sê-lo apenas intelectualmente.''
O Dia Internacional para a Tolerância marca a assinatura da Declaração de Princípios, adaptada e assinada em 16 de novembro de 1995, dia da celebração do 50º aniversário da adoção da Constituição da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).
A proclamação de um Ano Internacional para a Tolerância tinha por objetivo imediato sensibilizar os políticos e a opinião pública para os perigos ligados às formas contemporâneas de intolerância. Desde o final da Guerra Fria, assiste-se a um aumento de conflitos de origem social, religiosa e cultural.

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