Arrogância punida
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de novembro de 1996
Luiz Geraldo Mazza 
Arrogância punida
No dia a dia mal percebemos o quanto a arrogância é castigada, tal qual se dava com a nudez na alegoria de Nelson Rodrigues. No boxe, nessa luta de titãs entre Tyson e Hollyfield, houve uma efabulação nesse sentido: o mais contido, o menos falastrão, mas em compensação mais dedicado e consciente - inclusive consultando a bola de cristal moderna que é o registro do computador, na qual descobriu as fragilidades do adversário na hora do recuo e a sua força no ataque à média distância - levou a melhor, surpreendendo a cátedra.
O futebol também ensina a temperar ousadia com humildade, armas que fazem do Atlético Paranaense, no momento pelo menos, o líder do campeonato brasileiro deste ano e que também se dá no caso específico do Londrina, habilitado a disputar as finais da segundona ao jogar pelo resultado e saber manter-se com a frieza suficiente para ganhar no imponderável da disputa por pênaltis.
Mas é na política que mais seguidamente temos o castigo pela auto-suficiência, quando o candidato oposicionista se valeu das armas da irracionalidade na pregação a um divisionismo de circunstância, convicto de que seria a matéria prima da sua vitória. O oportunismo de políticos como Álvaro Dias, que mora em Curitiba e na cidade tem o seu domicílio eleitoral, ao embalar essa tese primata dava a entender que a exploração dessa temática é que estava dando a Hauly o bom desempenho nas pesquisas.
Superestimaram o valor do divisionismo - aliás pregado também pelos pedetistas e aliados na idiotice de discriminar Hauly por ser de Cambé - e subestimaram a força de Lerner e do governo como capaz de reequilibrar as coisas e permitir a reversão do quadro. As pesquisas, tanto do Datafolha quanto do Alvorada, mostram uma diferença entre Belinati e Hauly de 15 e 10 pontos, respectivamente. Dizer que a sondagem é oficial é desculpa esfarrapada, e partir para a tática da saída conspiratória, como estranhar que a Folha de S. Paulo não deu a pesquisa de Londrina quando o fez com Caxias do Sul e cidades do interior paulista, não solucionam a questão.
Agora, para completar o que há de anedótico na natureza humana, só falta quem lidera as pesquisas, através do seu comando, adotar postura arrogante e cair na onda do já ganhou para que a lição, ora efabulada, se repita.
BIZARRICE - O pedido de informação do deputado Dr. Rosinha ao secretário Lubomir Ficinski, do Planejamento, para que explicasse as razões pelas quais houve diferença, que vai de R$ 2,02 a R$ 19,22 por metro quadrado na desapropriação de áreas do canal extravasor do Rio Iguaçu, obviamente não foi aprovado. O presidente da Assembléia Legislativa, Aníbal Khury, e um conselheiro do Tribunal de Contas também foram indenizados de forma diferenciada. Sem falar no caso específico do Atlético Paranaense, que recebeu, segundo a denúncia do deputado petista, R$ 5,7 milhões por uma área de 349.677,51 metros quadrados, o que equivale a R$ 19,22 por metro quadrado.
O canal extravasor da dúvida e da indignação jamais será o Legislativo porque hoje, como antes, age como um vaso comunicante do Executivo, seja na água limpa ou no esgoto.
SPRAY - Nada menos de 70 mil pessoas e instituições são investigadas na sequela da falsificação das guias de ICMS. Quanto maior o raio do processo, menor a possibilidade de apurar culpados. - Nesta semana em Foz do Iguaçu sai o 1º Congresso de Magistradas. No concurso recente para juiz substituto um terço dos aprovados era do sexo feminino. Na carreira há cerca de 80 mulheres e no Ministério Público, perto de uma centena. Primeira mulher a alcançar o posto de desembargadora foi Lilia Lopes Teixeira, irmã do desembargador Lauro Lima Lopes, já falecido. Como diz o anarquista Eduardo Marques, Themis, até prova em contrário, era cega e fêmea. - Sexta à noite, no Instituto Jaime Lerner, houve encontro entre o prefeito eleito, Cássio Taniguchi, e o presidente da Câmara, Íris Simões. Eram aliados e romperam justamente na última eleição da Comissão Executiva, vencida por Simões e com as manobras dirigidas por João Simões, até aquele momento no cartel do transporte. Falaram disso e também, é claro, do orçamento. - Ontem o rumor na Câmara Municipal, e que rescende à barganha, era um esforço para questionar a licitação da coleta do lixo vencida pela Cavo e que pode ir à instância judicial.
FOLCLORE 1 - Brasileiro não respeita nem tragédia, com a sua compulsão pela anedota. Isto tanto é verdade que afirmam que o co-piloto do jato que caiu em São Paulo murmurava segura o tam. Agora, com a morbidez despertada pelo cidadão castrado por uma adolescente, se sugere que hoje, por uma questão de cautela, quem for a um motel deve necessariamente pedir dois baldes com gelo. Um para o uísque é claro.
FOLCLORE 2 - Com o drama do goleiro do Atlético Ricardo Pinto não há clima para anedota em torno da exibição hoje do escrete brasileiro. Segundo o anarquista de plantão, Elísio Marques, vai haver Leão Veloso, a sopa famosa no Pinheirão, só que misturando a de bagres do selecionado ao coquetel de Camarões.
CROMO - Domingo, batismo do meu neto, o mais novo, Ângelo, revi os vitrais e expliquei aos maiores, Luiz Geraldo, de dois anos, e Diego de dez anos, como a luz externa é que dá sentido a essa arte. Ontem, missa de aniversário de minha irmã Alba, a mais nova, que nos deixou este ano, cultuamos a esperança na luz eterna.


