A maneira como o cérebro responde aos estímulos presentes nos espaços em que vivemos pode trazer benefícios reais na nossa rotina em casa, no trabalho e em espaços comuns. Luz natural, ventilação, temperatura, acústica, cores, texturas, vegetação, proporções dos ambientes, organização dos espaços, sinalização e, até mesmo, o percurso que uma pessoa faz dentro de um edifício são elementos capazes de influenciar a forma como percebemos e utilizamos determinado lugar. Isso afeta diretamente nosso humor, disposição, sentimentos e sensações, como o de segurança.

Numa abordagem que reúne conhecimentos da arquitetura, da neurociência, da psicologia ambiental e da medicina surge a neuroarquitetura, área de estudos que busca compreender como os espaços construídos influenciam o comportamento, as emoções, a percepção, o bem-estar e até o desempenho das pessoas.

Diversos estudos científicos demonstram que ambientes bem projetados podem estar associados à redução dos níveis de estresse, ao aumento da sensação de conforto, à melhora da orientação espacial, ao fortalecimento do vínculo com o ambiente e ao favorecimento da concentração e da interação social. Esses benefícios não decorrem de um único elemento, mas do conjunto das soluções arquitetônicas adotadas de forma integrada. Na prática, como isso ocorre e como podemos nos beneficiar desses estudos?

Na área da saúde, hospitais projetados com atenção à iluminação, vistas para áreas verdes, privacidade e redução de ruídos podem proporcionar uma experiência mais acolhedora para pacientes, familiares e equipes médicas. Um dos estudos pioneiros foi publicado em 1984 pelo pesquisador Roger Ulrich, demonstrando que pacientes internados em quartos com vista para árvores apresentaram recuperação mais favorável do que aqueles cuja janela dava para uma parede de tijolos. Esse trabalho tornou-se um marco na pesquisa sobre ambientes terapêuticos.

Em ambientes corporativos, projetos que priorizam iluminação natural, conforto acústico, ergonomia, qualidade do ar e áreas de convivência tendem a favorecer o bem-estar dos colaboradores e podem contribuir para melhores condições de concentração e produtividade. A consequência é um número menor de afastamentos dos colaboradores causados por riscos psicossociais e fatores de estresse ocupacional que afetam a saúde mental. Isso impacta até a gestão das despesas com saúde pública.

Em escolas, a arquitetura também exerce papel importante. Ambientes confortáveis, iluminados e organizados favorecem a permanência, o aprendizado, a criatividade e a interação entre alunos e professores. A neuroarquitetura promove a percepção dos espaços de forma holística e, por isso, pode contribuir para o neurodesenvolvimento de crianças autistas, por exemplo.

Com base nos princípios da neurociência, a neuroarquitetura infantil utiliza ferramentas para projetar ambientes físicos que moldam positivamente o cérebro em desenvolvimento. Para crianças com distúrbios de regulação emocional (como ansiedade e trauma) ou condições psicomotoras e neuroatípicas (como TEA, TDAH e dispraxia), o espaço deixa de ser neutro e passa a atuar diretamente como um agente terapêutico e estabilizador. Com a aplicação da neuroarquitetura o resultado é a melhora no bem-estar, na saúde física e mental e maior desenvolvimento da criança em ambientes residenciais, educacionais e hospitalares.

Nos espaços públicos, o projeto arquitetônico pode facilitar a orientação das pessoas, reduzir a sensação de insegurança, aumentar a segurança, incentivar caminhadas, estimular a convivência social e tornar a cidade mais inclusiva. Um ambiente intuitivo reduz o estresse de quem precisa encontrar um destino, especialmente em hospitais, aeroportos, estações, centros comerciais e repartições públicas.

E, então, já conseguiu identificar onde a arquitetura pode beneficiar e melhorar a qualidade de vida no seu dia-a-dia?

Cristiana Skraba, arquiteta especialista em projetos com foco na qualidade do ambiente construído

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