Por falta de idéias mais avançadas para elaborar um projeto de efetiva reforma agrária, o governo vai tomando medidas paliativas, como esta agora de criar um plano nacional de prevenção contra a violência no campo por via do desarmamento de sem-terra e proprietários rurais. Primeiro, que não está na eventual existência de armas a questão, e sim no problema social dos acampados que habitam debaixo das lonas e das invasões de terras. Não é por ação de grupos armados que as invasões ocorrem e sim pela simples presença de volumosos contingentes de famílias com mulheres, crianças, idosos que tomam de assalto propriedades alheias e contra os quais nada é possível fazer por via de enfrentamento. Houvesse violência generalizada por utilização de armas, já teriam ocorrido sangrentas batalhas no campo. Se houve casos isolados de confrontos, inclusive com mortes, eles são felizmente poucos, e constituem efeito e não causa. Os instrumentos que os sem-terra utilizam em suas marchas e invasões, como foices e outras ferramentas, são apenas símbolos de campanha, embora impressionem e amedrontem. Se o Ouvidor Agrário Nacional, Gersino da Silva, proclama que ''a reforma agrária vive um momento construtivo'' e que ''há recursos assegurados e estoque de terras'', então é partir desta realidade para a ação, sem mais ilusionismos do tipo plano de desarmamento. Não reside aí o âmago da questão e sim num bem elaborado programa de assentamento, com aquisição regular de terras pelo Incra, pagas em dinheiro, política agronômica, planos de moradia, atendimento social, facilitação dos assentados aos cursos já existentes de orientação técnica, e outros tantos. Não basta assentar famílias em alguma propriedade sem a necessária complementação, até que essa gente embora boa parte com experiência anterior ána lavoura se integre novamente à terra e a faça render. Há fórmulas semelhantes que estão dando certo, como as existentes no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, pelo sistema de arrendamento e parcerias. Certo é que, antes de tudo, será necessária a boa vontade do sem-terra e o seu ideal de realmente trabalhar e crescer na atividade rural. Um mal ainda por sanar é que o governo não é do ramo, o Incra não é do ramo e também não se sabe se o ouvidor consegue decodificar o que ouve... A idéia de criar um plano de desarmamento, se mal não faz, não é fundamental e só servirá para mais rodadas de discursos, enquanto o foco central é desviado das atenções. As invasões continuam, e só nos primeiros sete meses deste ano houve 255, no País, com indicativos de intensificação. O caminho é solucionar a causa, por via de bem elaborado projeto agrário a cargo de técnicos e não de burocratas que cerque de garantias não só colonos em luta pela terra mas também os atuais pequenos proprietários rurais. Isto feito, não será necessário nenhum plano de desarmamento, porque a gente do campo é pacífica por natureza.

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