A minissérie Hilda Furacão, da Rede Globo, tem revelado muito mais do que a beleza da atriz e modelo Ana Paula Arósio. O pano de fundo para a história de amor da prostituta e do santo é a história política do País no final dos anos 50. Quem gosta de política, como eu, deve ter se deliciado com as marchinhas das campanhas eleitorais de Jânio Quadros e do marechal Lott, candidatos a presidente da República em 1960.
As gerações mais jovens só as conheciam de ouvir dizer ou de refrões escritos em livros de escola. Com melodia e imagem, como são apresentadas pela televisão, as marchinhas dão a idéia de um passado romântico, em que as querelas políticas eram mais simples, quiçá mais ingênuas.
Entretanto, há momentos na minissérie em que é difícil precisar a época dos acontecimentos. O que surge e o que se fala na telinha, em jargão e vestimenta dos anos 50, parecem crônica do quadro político atual. Cito, como exemplo, a campanha anticomunista mostrada em Hilda Furacão.
Estão presentes ali todos os estereótipos associados aos políticos de esquerda, particularmente os de orientação comunista. ‘‘Comunista come criancinha’’, dizia-se. ‘‘Comunismo é coisa do demônio’’, repetia-se. ‘‘O Comunismo quer destruir a família brasileira’’, e outros tantos que apavoraram o mundo naquele período.
Depois da queda do Muro de Berlim, que sepultou boa parte das ideologias de esquerda, esses estereótipos viraram motivo de piada, de sinal de ingenuidade política de uma geração. Imaginava-se que, no mundo globalizado e conectado à Internet, acreditar que comunista come criancinha era mera ignorância. No mundo moderno, a esquerda passou a ser considerada até irrelevante, dinossáurica e atrasada.
Basta ver as últimas propagandas eleitorais do PFL na televisão para perceber que o que se diz em Hilda Furacão, retrato de quase quarenta anos atrás, está de volta à cena política. O PFL, no afã de defender a candidatura Fernando Henrique Cardoso, tem praticado a tese do terrorismo.
Nos seus comerciais, alerta o eleitor para o risco do caos e da desordem no País. Numa roupagem modernosa e jargão ano 2000, nada mais faz do que vender a idéia de que seus opositores estão aliados ao demônio para destruir o Brasil. Nada mais parecido com o que se vê na minissérie da Globo.
Com o fim da ditadura no Brasil e a instauração de um regime democrático, práticas como essas pareciam estar relegadas apenas às minisséries, como uma mostra de um país intolerante e preconceituoso. Não é o que se vê nesta campanha eleitoral que mal saiu das mentes dos marqueteiros de plantão.
A esquerda, como se diz, é mesmo atrasada e dinossáurica em muitos aspectos. Mas a direita não fica atrás. Para ela, o muro ainda não caiu. O discurso do terror é o mesmo, em 1998 ou 1960. O PFL e Hilda Furacão estão aí, na telinha da Globo, para provar.

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