Futuro certo Arlete Salvador O terremoto político que se abateu sobre São Paulo nos últimos dias, com a entrevista da ex-primeira dama Nicéa Pitta à Rede Globo, pode ter como consequência salutar justamente aquilo que todo terremoto provoca – derruba tudo. A administração da cidade e as suas forças políticas, se esse terremoto realmente alcançar o grau máximo e os paulistanos tiverem alguma dose de sorte, deverão começar a existir do zero. Diante do caos atual, essa é uma notícia digna de comemoração. Com 10 milhões de habitantes, dona do terceiro maior orçamento do país, depois dos da União e do Estado de São Paulo, e prestes a entrar no novo milênio como um centro dedicado à área de serviços – entenda-se aí informática, telecomunicações e mercado financeiro –, a cidade necessita de práticas políticas renovadas para sobreviver e enfrentar esse desafio futuro. É mudar ou morrer. O momento, finalmente, chegou. Pelo menos isso deve-se a Nicéa, independentemente das motivações pessoais que a levaram a abrir a boca. As mudanças a que me refiro não dizem respeito apenas à troca do prefeito ou de partidos no poder. A cidade precisa é de um novo jeito de administração da vida pública e de seus recursos. Em seus quase 500 anos de vida, com poucas exceções, São Paulo vem sendo administrada na base do clientelismo, do favorecimento pessoal, da corrupção e do uso burro do dinheiro público, transformado em obras faraônicas e inúteis. Esse modelo, sustentado talvez até por motivos culturais, não serve mais. E por conveniências muito mais capitalistas do que ideológicas. Simples: ficou caro demais sustentá-lo. A corrupção, em qualquer de suas formas e níveis, por exemplo, pode trazer prejuízos à capacidade competitiva das empresas. Na chamada nova economia – e São Paulo ainda é a tal locomotiva brasileira – cada centavo economizado representa preços melhores, vendas e lucros maiores. Pagar propina, portanto, deixou de ser um bom negócio. As empresas aqui instaladas também já descobriram que é muito, mas muito caro mesmo, fazer o papel do Estado. É quase impossível calcular os gastos para garantir a segurança de seus imóveis, executivos e suas famílias. Comprar e manter um helicóptero, como forma de escapar do trânsito congestionado, é outra despesa absurda. Sem falar nas enchentes de verão e seus prejuízos gigantescos e na qualidade do ar. Uma cidade assim não comporta uma economia que precisa ser cada vez mais rápida, limpa e barata. O modelo político-administrativo adotado em São Paulo parece estar com os dias contados. Talvez não se resolva tudo de uma hora para outra, com a eleição municipal marcada para este ano. Mas há um componente que evidencia a dimensão do atraso desse modelo e a sua exaustão. As mesmas forças que ajudaram a criá-lo hoje precisam de um governo mais eficiente, justo e democrático para sobreviver. A globalização e a abertura dos mercados, pelo menos, tiveram esse mérito. - ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo (SP)