Arlete Salvador
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sexta-feira, 14 de maio de 1999
Arlete Salvador 
Todos os guias de turismo definem o arquipélago de Fernando de Noronha, em Pernambuco, como um paraíso. E é mesmo, com suas praias de areia branca, águas cristalinas, peixes coloridos e tartarugas. Trata-se de um paraíso ecológico. Há regras para proteger as tartarugas marinhas, os locais de alimentação dos peixes e as piscinas naturais que se formam e se desmancham todos os dias.
Em Fernando de Noronha não se pode nadar com bronzeador e pé-de-pato; ali é proibido caminhar depois das 18 horas porque é lugar de desova de tartarugas. Guardas do Ibama, o instituto de preservação ambiental, permanecem de prontidão em algumas praias para garantir o sossego da vida marinha e o sossego geral e necessário da natureza. Aparentemente, a vida na ilha é inteiramente feita para preservar a natureza.
O que atrapalha mesmo são os turistas. São uns chatos, porque não compreendem a importância de tantas limitações à entrada nas praias. São uns mal-educados, jogam lixo no chão, reclamam do preço das diárias, das condições dos hotéis, da falta de remédios básicos para diarréia, do aluguel de jipes, da falta de uma sombra na areia e do racionamento de água. Tudo isso é estrutura para garantir a sobrevivência dos bichinhos lá. Não há é infra-estrutura para os turistas inconvenientes que chegam de todos os cantos.
Descobre-se, agora, pela preferência que figuras do governo federal dão à ilha como destino de férias e lazer de final de semana, que Fernando de Noronha tem turistas e turistas. Daí o sucesso da ilha entre os bem informados sobre o que há de melhor para fazer no País. Sem pagar taxa de preservação ambiental, viajando convenientemente em aviões militares da FAB (Força Aérea Brasileira) - de graça, portanto, sem pagar um tostão - e hospedando-se no melhor hotel da ilha, obviamente que tudo fica diferente em Fernando de Noronha. É possível driblar os preços abusivos de todas as pousadas e dos jipes. Nem se sente a falta dágua.
Tal como os peixes e as tartarugas, os turistas especiais, membros dos altos escalões do governo federal, são preservados dos inconvenientes da ilha. Devem até ter chuveiro com água quente, coisa raríssima nas pousadas familiares disponíveis na ilha. Esse tipo de turista não enfrenta fila para pagar a taxa de preservação ambiental, não tem que dar conta de seu endereço na ilha, como obrigatoriamente o fazem os outros tipos de turistas.
Desembarcar no arquipélago de Fernando de Noronha é tão complicado quanto entrar nos Estados Unidos. Se o nome do turista não estiver na lista, nada feito, não entra, não tem jeito, não se quebra o galho. O número de visitantes é controladíssimo, mas, claro, essa regra se aplica a certos visitantes. Somente aos que cobram maior atenção ao turista.
Os preços altos em Fernando de Noronha são atribuídos, primeiro, a distância que separa a ilha do continente. Tudo, de cerveja a remédios, só chega de barco. Segundo, à condição de santuário ecológico do lugar. Liberalizar a entrada de muitos turistas ou permitir construções mais modernas, alega-se, é um risco ao equilíbrio do ecossistema, uma ameaça à vida marinha.
Turista, ouve-se por lá, é um mal necessário para garantir a sobrevivência dos nativos.
Como se vê, Fernando de Noronha é mesmo um paraíso para poucos. Para peixes, tartarugas e amigos da corte. Ao turista anônimo só é dado o direito de pagar a conta - de ambos.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo


