Argumento furado
Na surdina, sem ninguém perceber, os parlamentares ligados à comissão que responde pelos interesses da agricultura no Congresso aprovaram a plantação de transgênicos em solo nacional. Atropelaram a necessidade de se fazer um estudo de impacto ambiental, importante para avaliar se a natureza muda ou não depois da plantação de um organismo geneticamente modificado (OGM). No voto, definiram que pode tudo, plantar e vender. O ex-ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, rechaçou o projeto, reclamou por ter perdido o direito de falar. Depois de muita pancada, empurrão, palavrão, venceu a indústria dos OGM. O projeto ainda vai ao plenário da Câmara e depois vai para o Senado. Mas fica a questão.
Se a entrada dos transgênicos vai ou não alavancar a economia, não se sabe ao certo. O que mais incomoda são argumentos da indústria para emplacar a mudança histórica. Ela insiste em defender que esses alimentos vão matar a fome do mundo. Não é verdade. Não convence. Os alimentos modificados estão por toda parte. Inclusive nas prateleiras brasileiras. Em marcas de batata frita, de macarrão instantâneo e até de leite em pó infantil.
Só no Brasil, existem 23 milhões de famintos. Há comida produzida para todos. O problema está na distribuição. Todos os dias, nós, brasileiros, jogamos fora 39 mil toneladas de alimentos, o suficiente para nutrir 19 milhões de pessoas. A produção agrícola, seja ela moderna como os transgênicos ou ultrapassada como o pé de alface do quintal, é desperdiçada de todo jeito. Para ter uma idéia, apenas 39% do que produzem as terras brasileiras viram comida no prato de alguém.
Tem mais, 20% são perdidos na hora da colheita, 8% se esvaem no transporte ou armazenamento, 15% ficam no chão das indústrias, sem contar com aqueles ovos que se quebram em casa ou com o iogurte jogado fora a um dia de vencer. Os supermercados no Brasil preferem jogar fora alimentos. Leis nacionais dizem que o empresário deve pagar ICMS sobre alimentos doados, como se os tivesse vendido. Assim, complica. A lei, que não faz dos donos de empresas bons samaritanos, está atravancada. A que muda a natureza dos alimentos passou pelo primeiro grande obstáculo. Foi mais fácil.
MARIA CLARICE DIAS é jornalista em Brasília





