Com cidades enfrentando ilhas de calor, enchentes e doenças urbanas, as áreas verdes surgem como uma solução poderosa para combater as mudanças climáticas e melhorar a qualidade de vida nos centros urbanos. Mas a preservação desses espaços depende de decisões conscientes e comprometidas.

Na semana passada, São José dos Campos, em São Paulo, sediou o 4º Fórum Latino-Americano e Caribenho de Florestas Urbanas, reunindo especialistas para discutir o futuro das florestas em nossas cidades. Entre os temas abordados, o conceito 3:30:300 ganhou destaque. Essa regra preconiza que cada residência deve ter a vista de três árvores, 30% da área de cada bairro deve ser coberta por copas de árvores, e todos os moradores devem ter uma área verde acessível a até 300 metros de suas casas.

A adoção desse conceito tem potencial transformador para as cidades brasileiras. Ele oferece uma resposta prática às necessidades urbanas, como conforto térmico, melhoria da qualidade do ar, conservação da água, diminuição de enchentes e incentivo à mobilidade ativa.

Espaços verdes proporcionam ambientes favoráveis à prática de atividades físicas e ao convívio social, reduzindo a incidência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares. Essas doenças, que consomem uma significativa parcela do orçamento do Sistema Único de Saúde (SUS), poderiam ser mitigadas com estratégias urbanísticas mais focadas no bem-estar.

Algumas cidades brasileiras já se destacam pela valorização das florestas urbanas. Campo Grande (MS), por exemplo, conquistou pela quinta vez consecutiva a certificação internacional “Tree Cities of the World” (Cidades Árvore do Mundo), concedida pela Organização Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), em parceria com a Fundação Arbor Day. São José dos Campos/SP modernizou a gestão de suas árvores com sistemas digitalizados e preserva exemplares históricos. No Paraná, Curitiba é famosa por seus parques e Maringá por sua arborização densa e estratégica.

Londrina também é um caso exemplar. Desde a década de 1950, quando recebeu a consultoria do urbanista e ex-prefeito de São Paulo Prestes Maia, a cidade adotou políticas para proteger cursos d’água e áreas verdes. Essa estratégia resultou num instrumento chamado “faixa sanitária”, que além de contribuir para o controle de alagamentos, criou uma rede de espaços verdes que valoriza a cidade. Enquanto muitas cidades sofrem com rios canalizados e enchentes, Londrina mantém suas águas urbanas cercadas por áreas verdes, demonstrando que planejamento a longo prazo é um investimento valioso.

Hoje, esse legado coloca Londrina em uma posição privilegiada, mas também exige responsabilidade: manter e ampliar essas áreas verdes é essencial para garantir que as próximas gerações desfrutem dos benefícios que elas oferecem, como conforto térmico, qualidade do ar e espaços de convivência. O que foi visionário no passado deve continuar sendo prioridade para um futuro mais sustentável e resiliente.

Apostar nas áreas verdes não é apenas um compromisso com o meio ambiente, mas com o bem-estar de milhões de brasileiros. Cidades que priorizam conceitos como o 3:30:300 e investem em políticas de arborização demonstram que é possível alinhar desenvolvimento urbano e qualidade de vida. Cada árvore plantada, cada parque protegido é um passo em direção a um futuro onde viver na cidade não seja sinônimo de abrir mão de conforto, saúde e equilíbrio. O futuro que queremos construir está em nossas mãos.

Gustavo Góes é gestor ambiental, associado da ONG MAE e membro do Conselho Municipal do Meio Ambiente de Londrina.

mockup