Ardisson Naim Akel

Taxas de juros e estabilidade
As elevadas taxas de juros vigentes na economia brasileira estão provocando desaceleração do ritmo da atividade econômica.
Os empresários, principalmente os micro e pequenos, que não têm acesso ao mercado financeiro internacional, onde as taxas de juros são extremamente baixas comparadas às brasileiras, enfrentam competição desleal.
Os elevados custos financeiros que afetam as empresas na manutenção de estoques se embutem nos custos dos produtos, desde sua fase de produção até à de comercialização, estrangulam as baixas margens de lucro com que as empresas trabalham hoje, elevando os níveis de inadimplência, o que é reforçado pelo já elevado nível de endividamento dos consumidores.
Observando as informações conjunturais da atualidade, época em que normalmente a economia apresenta taxas de crescimento elevadas, o que vem se notando é um decréscimo nas atividades. As vendas do comércio nesta época natalina devem ser inferiores às no ano passado.
Para agravar a situação, as empresas nacionais enfrentam uma competição desleal de produtores internacionais como os da China, Taiwan e Indonésia, entre outros, que aviltam os salários de seus trabalhadores e dispõem de fortíssimos incentivos tributários, com os quais não contam os produtores nacionais.
Na China, o salário de um trabalhador é cerca de US$ 60,00, a metade do que recebe um trabalhador brasileiro que ganha um salário mínimo. A carga tributária que incide sobre os produtos importados também é desfavorável, e muito, para o produtor nacional. O produto importado é taxado apenas uma vez. O similar nacional fica sem condições de competitividade.
Um bom exemplo disso é o que aconteceu com o setor têxtil. No Paraná, a atividade algodoeira só agora começa a ser revitalizada. No auge da era algodoeira, em 92/93, o Paraná tinha 704 mil hectares plantados com algodão e era o maior produtor nacional. Em 96/97, o Paraná tinha somente 59.700 hectares plantados uma redução de 91,5%. Tudo graças a política do governo federal que abriu as importações sem oferecer qualquer proteção aos produtores nacionais. O resultado, mais de 200 mil desempregados no campo, falência nas indústrias de beneficiamento locais e clima de euforia nos países fornecedores que viram, de repente, suas exportações para o Brasil crescerem em ritmo alucinado. O motivo básico da substituição do produto nacional pelo importado é que, o externo vem com prazo de pagamento de 360 dias, enquanto o brasileiro exige pagamento à vista ou financiado, o que, onera o produto devido as nossas estratosféricas taxas.
Assim, é fundamental que o Governo Federal reveja urgentemente sua política de juros elevados, dando ao setor produtivo nacional condições de financiamento e tributárias iguais aos produtos internacionais que aqui competem, no quadro de abertura da economia brasileira.
O governo acaba de anunciar uma redução na taxa de juros. Boa notícia, mas nem tanto. Dificilmente essa pequena redução trará benefícios positivos a curto prazo 1998 começa com a perspectiva de retração na economia. Se não houver mudanças, a atividade econômica ficará ainda mais estagnada, haverá mais redução da produção, aumentará a inadimplência e os reflexos sociais serão inevitáveis.
O plano de estabilização econômica brasileiro tem um encontro com a história. Num primeiro momento, o plano sustentou-se em âncoras que garantiam a estabilização de preços, com moeda valorizada frente às de outros países, abertura comercial irrestrita, através da redução de tarifas de importação e contenção salarial. Estratégia sustentável a curto médio prazos. A partir do último trimestre de 96 já era possível detectar a aceleração do desequilíbrio externo. O Governo, no entanto, preferiu esperar, sustentando artificialmente a moeda. Nunca é demais lembrar que vivemos uma situação análoga no começo da década de 80, que provocou a maior recessão da história do Brasil e não resolveu o problema externo.
Apesar das medidas do pacote fiscal, a ferida continua aberta. As empresas, já enfraquecidas pela alta dos juros, estão ainda mais suscetíveis pela queda da demanda. Os trabalhadores sofrem com a ameaça do desemprego e com a queda do salário real. A crise interna se agrava. Com a queda nos investimentos e menor volume de produção aumentam os custos médios e a economia tende a lentidão e ao enfraquecimento da condição competitiva externa.
É preciso rever a taxa de câmbio - sem choque cambiais ou maxi-desvalorização - e restabelecer níveis mínimos de barreiras tarifárias que projetam o empresariado internacional da competição desigual com os exportadores estrangeiros. Quanto maior a demora para adotar essas medidas, maior o risco de, paralelamente ao processo recessivo, ocorrerem problemas afetando empresas e bancos. O maior exemplo disso é o que aconteceu na Coréia, que fez à força o ajuste da taxa de câmbio. O que se viu foi uma onda de quebradeiras de grandes corporações industriais, comerciais e financeiras.
Para o Brasil, ainda há tempo. Mas é preciso que o governo aja e aja com rapidez. Ninguém quer a volta da inflação. Ninguém quer a recessão. Todo empresário - assim como qualquer cidadão - sonha com um 98 com economia equilibrada, taxas de juros razoáveis e pleno emprego. Para isso, é preciso que o Governo promova, e logo, os ajustes necessários à sobrevivência do plano de estabilização econômica.
- ARDISSON NAIM AKEL é empresário e presidente da Associação Comercial do Paraná.

mockup