Aquilo que constrói um ser humano - Donato Parisotto
Donato Parisotto
O homem, na concepção genérica de masculino e feminino, é um ser perfectível, a buscar sempre seu aperfeiçoamento, seu aprimoramento e a passar de potência, vir-a-ser, a ato, o ser, num círculo evolutivo constante. Na demanda de sua realização de fugir do Taedium vitae e do nihilismo, tédio da vida e do nadismo que determinam a passividade e o estresse, a trazer-lhe a agonia interna, do grego agonia, luta profunda. A esta fuga do Taedium vitae e do nihilismo é que se deve desejar-lhe para o próximo milênio, na pugna contra a vulgaridade. Deve ele buscar, pelo menos, quatro elementos fundamentais para atingir um melhor estágio de perfectibilidade: A) A busca da verdade, o conhecer; B) A busca da estética, o belo: C) A busca da expressão, o comunicar: e D) A busca de algo superior a tudo: o Ser.
A busca da verdade, no equilíbrio latino, Virtus in medio est, onde razão e emoção devem ser o fiel da balança. Nada de fanatismo, nada de extremismo e nada de partidarismo, sobretudo emocional, fútil e debilitante. O extremismo é delírio: saída do sulco traçado pela charrua. Amor à verdade racionalizada, científica e apartidária extremista e bom senso. A palavra sabedoria vem de sapere, que deu sabedor + ia = conhecedor daquilo de que fala ou que escreve. Todo ser racional tem o pensar, que caracteriza a massa, o povão; tem o poder de o pensamento criar, inventar, descobrir, que caracteriza poucos, o gênio. A maioria parece estar bem, realizada e passiva como massa, o pensar. Isto é pouco, é sempre potência, é negar a perfectibilidade, é ter tédio da vida e conformar-se com nadismo.
A palavra cultura do verbo colere, cultum, colui é cultivar, e cultivar exige atividade, dedicação, persistência e aperfeiçoamento constante, mesmo no sentido material, concreto: agricultura: cultivar com esmero o campo.
A sensibilidade ao belo deve acompanhar, pari passo, o ser humano, que, só com o conhecer a verdade, é pobre. A própria verdade, um fato científico, deve ser admirada, por ser bela; uma idéia é bela. Um sentimento é belo. Vive-se cercado do belo, que deve ser observado, visto, enxergado, admirado. A beleza locupleta o ser, como humano. A busca da expressão, comunicação, é bela, realizadora e significativa. O homem é uma unidade psicossomática com linguagem, código. O único ser que possui linguagem herdada e articulada é o homem. A linguagem é a veste do pensamento; é sua verbalização, sua concretização no processo de exprimir e comunicar. Pensar sem a linguagem é propriamente impossível, a não ser sem atos místicos, mas não comunicativos e verbalizados.
A integração e a interação do pensar e do comunicar fazem do homem um ser superior a todos os outros criados. A busca de algo superior a tudo é fundamental e completa o homem. Religião é re-licare, religar o ser com o Ser. É a relação necessária do criado e do Criador. O criado consciente e confiante em sua racionalidade e no equilíbrio razão-emoção, a afastar o falso conceito de paternalismo teocêntrico dos carolas, dos ladrões da virtude: o que é bom é pecado, ou faz mal. Cheiro de sacristia é inoperante. O carola é o ladrão da virtude, disse Confúcio. Essas são as conjecturas na luta do homem pelo ideal e real no verdadeiro conflito barroco, claroescuro.





