Aqui não é a Indonésia (Editorial)
EditorialAqui não é a Indonésia
Ao longo desta semana, cenas de violência foram apresentadas nos noticiários da TV, mostrando os choques entre populares e membros das forças de repressão da Indonésia. Na quarta-feira, outra vez se viu quadro semelhante, com o confronto entre policiais e civis, em um clima de quase guerra. A diferença é que as ocorrências de quarta-feira não se registraram em Jacarta e nem mesmo em Gaza, na Cisjordânia, local que também tem sido palco de muitos conflitos envolvendo população e militares.
Os confrontos de quarta-feira em Brasília, assim como outras sérias ocorrências que se registram em pontos do Nordeste, com saques contra supermercados e ataques a caminhões carregados, parecem deslocados no Brasil. Mais que isto, a violência que está explodindo em alguns pontos do País dá a impressão de atitude orquestrada com um propósito bem claro. Não se trata, como na Indonésia ou no território palestino ocupado, de ações com o objetivo de derrubar ditadores, mas de mobilizações que sequer escondem a tentativa de conturbar o clima e criar situação conflituosa que não interessa a ninguém e que não é o caminho para resolver os grandes problemas do Brasil.
É certo que há, no Nordeste, quadro de emergência que constrange e reclama ação concreta, imediata e franca para atender os milhões de famintos. Também é indiscutível que o drama da miséria, a falta de empregos, as dificuldades sociais que ponderável parcela da população enfrenta constituem fatos que reclamam soluções. Entretanto, estas situações não indicam como alternativa a violência. O caminho que está sendo adotado por algumas entidades sob a alegação de defesa do interesse dos mais carentes só produz como resultado mais problemas, ameaçando até as próprias instituições que, hoje, felizmente, não apenas são sólidas, mas democráticas.
O mais grave em toda esta agitação que está sendo armada no País é perceber a hipocrisia de quem sugere a ilegalidade como modo de solucionar problemas. Os poderosos podem se beneficiar da legalidade. Entretanto, exatamente porque têm força, podem prescindir dela. Já os mais fracos, os mais pobres, os carentes, estes precisam da lei, que é sua segurança e sua garantia. E o que se vê na incitação aos saques, no ataque aos policiais, na tentativa de invasão de prédios públicos, é justamente a quebra da lei, o que, desde logo, dá aos que devem mantê-la todas as condições para abusar dela. Na Indonésia, onde o povo lutava contra a ditadura, há até a justificativa de se ir contra a lei: ali, a lei serve só aos totalitários. Os brasileiros também viveram isto durante o regime militar, já enfrentraram os guardiões do totalitarismo e triunfaram (como está acontecendo naquele país).
Que o Brasil enfrenta sérios e enormes problemas, é inegável. Não se pode, porém, deixar de perceber que ocorreu expressivo avanço nos últimos anos. Ocorre que, até como resultado da terrível situação econômica que o País atravessava, muitos dos obstáculos de agora são resultado deste ajuste. Não se sai sem dificuldades de uma inflação avassaladora como a brasileira. É certo, sem dúvida, que se reclamam medidas mais concretas e objetivas no sentido de reduzir os problemas e dar à população condições de melhorar as próprias condições de vida. Todavia, não se pode perder de vista que o caminho para isto não é o da baderna, da violência, do confronto, da ilegalidade. Provocar instabilidade política e social hoje, no Brasil, só interessa a quem quer tirar o País do caminho da legalidade. O Brasil não é a Indonésia, e não precisa se converter em algo semelhante.





