Aqueles sem-presidente
Entre vários sistemas de organização social já inventados ao longo da história, dois ocupam posições diametralmente opostas. Um é o totalitarismo, onde um ditador escolhido pelo povo (como Hitler) ou levado ao poder pela luta armada (como Fidel), exercem o poder de forma absoluta, sem se preocuparem com a chateação de eleições, nem com a existência inconveniente dos poderes Legislativo e Judiciário.
No sistema totalitário, o ditador é a lei, o juiz e o carrasco. Aliás, mais frequentemente o último. O sistema antagônico é o anarquismo, onde não existe a figura do Estado e cada um faz o que lhe dá na telha. Mais ou menos como funciona o Rio de Janeiro.
Desses sistemas, o totalitarismo já foi amplamente testado pela história, e o resultado é festejado até hoje pelos coveiros. Nunca tantos mataram para impor sua vontade, e nunca tantos morreram lutando pela liberdade.
Já o anarquismo nunca foi testado seriamente. Na verdade, é considerado uma proposta irresponsável ou uma brincadeira juvenil, algo assim como uma festa de arromba no apartamento do amigo, onde tudo vai bem até que algum engraçadinho começa a passar a mão na nossa namorada. Então começa a pancadaria e alguém chama o síndico para pôr ordem na casa.
Pois os defensores do anarquismo têm dois exemplos interessantes para invocar ao seu favor. O Internacional, clube de futebol de Porto Alegre, está sem presidente há quase três meses. O antigo ocupante do cargo pediu licença por motivos de saúde e nunca mais voltou. Após sua renúncia oficial, facções antagônicas iniciaram uma disputa acirrada pelo poder, em pleno andamento do campeonato. Como desgraça pouca é bobagem, o clube está em dificuldades financeiras e com os salários dos jogadores atrasados. O resultado? Um caos total, lógico.
Errado. Há três semanas, nos últimos seis jogos, o Internacional venceu cinco e empatou um, num estupendo aproveitamento não igualado por nenhuma outra equipe na atual Copa Havelange.
Outro exemplo de vazio de poder com resultados extraordinários são os Estados Unidos. O sistema de governo americano, calcado num federalismo poderoso que concede grande autonomia aos estados, deixa ao seu presidente funções que pouco diferem das da rainha da Inglaterra. Sua principal função é defender os interesses norte-americanos junto ao resto do mundo, mesmo que seja à base de mísseis, e deixar os americanos trabalharem em paz.
Não por acaso, os presidentes mais bem-sucedidos que ocuparam a Casa Branca nas últimas décadas foram exatamente aqueles que menos se intrometeram na vida dos cidadãos. Ronald Reagan passou pela Presidência dos Estados Unidos como o canastrão que sempre foi no cinema, com um sorriso bobo e grandes gestos para as câmaras. Pilotou a nação do Tio Sam numa arrasadora vitória na Guerra Fria e iniciou o período de estupendo crescimento econômico que dura até hoje.
Já o desempenho de Bill Clinton pode ser resumido pelo sucesso de vendas que é o charuto Monica Lewinski, disponível nas melhores casas do ramo. Porém, os índices econômicos dos Estados Unidos, durante sua administração, foram extraordinários, e a taxa de desemprego é de matar de inveja todos os países intervencionistas que se gabam de suas políticas sociais e acham que emprego se fabrica por decreto.
Eu não sou um anarquista. Parece-me difícil a idéia de morar num prédio cheio de apartamentos sem um síndico para proibir cachorro fazendo cocô no elevador. Mas existe uma grande lição por trás dessa liberdade, mesmo que o cachorro não seja meu.
- KLEBER BOELTER é engenheiro, empresário e escritor em Porto Alegre





