Aqueles que são ''enlouquecidos de liberdade'' - Fernando José Dias da Silva
Aqueles que são enlouquecidosde liberdade
Fernando José Dias da Silva
O senador Pedro Simon recebeu o apelido de Derrubador. Um seu discurso apressou a queda de Clóvis Carvalho. E recomenda-se que ninguém fique ao seu lado quando discursa. Simon gesticula tanto que pode levar o vizinho à lona. Esse poder do senador se não é vero, é do Veríssimo.
Mas Pedro Simon virou agora candidato à presidência da República. A decisão não foi acolhida com fogos e nem com salva de tiros pelo seu partido, o PMDB. Nenhum entusiasmo foi percebido no comando do partido com lançamento da candidatura do senador. Os caciques, entretanto, não reagiram. Estrategicamente, estão deixando a coisa correr para ver no que dá. Estão de longe vendo as evoluções do senador.
Dizem que Jáder Barbalho, Michel Temer e Eliseu Padilha não estão dando pulos de alegria. Mas essa pré-candidatura pode servir para que o PMDB ocupe o seu espaço em um cenário de disputa que já começou a ser desenhado pelos outros partidos.
Com Pedro Simon, o PMDB ficaria em igualdade de condições com PFL e o PSDB que já colocaram o pessoal na fila da Presidência faz algum tempo. Depois, se a coisa não vingar, descarta-se Simon com toda a leveza, malevolência e criatividade característica dos grupos que dão as cartas na política brasileira.
Pode-se dizer que a situação é adversa para Pedro Simon. E então por que esse turco de armarinho se candidata à presidência da República com a maior desfaçatez? Talvez ele esteja entrando na aventura mais desastrada de sua vida. Mas pode ser também que o seu gesto tenha outra significação. E aí é preciso levar a sério a nova função de Pedro Simon em ser candidato de uma candidatura que não existe.
É verdade que ele tem aquele jeito de mascate pregoeiro de panos baratos e bijuteria sem valor. Mas a sua biografia desmente as aparências. Sempre foi político respeitado e que não se deixa embalar pelos modismos de ocasião para fazer parte de igrejinhas. Pedro Simon, faz tempo, é um peixe fora dágua.
Essa posição de out sider pode conferir ao senador gaúcho uma nova responsabilidade. A de mascatear sim. Mas não aqueles produtos que são o delírio das empregadas domésticas. Mascatear por aí novos sonhos de dignidade, de respeito à ética, de esperança, de generosidade.
Se esse for o objetivo do velho senador, ele poderá ser incluído naquele grupo de homens enlouquecidos de liberdade do qual falava Tancredo Neves, que fazia parte Teotônio Vilela e outras figuras que tomam para si a responsabilidade de exigir dos que mandam consideração por aqueles que são mandados.
Simon já cumpriu quase todas as etapas da vida pública. Começou como vereador em Caxias do Sul, foi deputado, governador do Rio Grande do Sul e está no seu terceiro mandato como senador. Não tem muito o que acrescentar ao seu currículo. A não ser o de ombudsman da Nação, de consciência crítica dos poderosos. Se conseguir, fecha bem sua carreira.
Depois, Pedro Simon é show. Ulysses Guimarães dizia: Há bons oradores populares ou parlamentares. Simultaneamente bom no palanque e bom na tribuna, no Brasil, só conheço um: Pedro Simon. No palanque fica em transe. Dá show, mágica, sessão de ectoplasma. Possesso, funde-se com a multidão, rege o silêncio e o aplauso.
Talvez por isso seja preciso torcer por Pedro Simon.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo





