Aquecimento global
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de dezembro de 2001
Clóvis Borges 
A utilização cada vez mais intensa pelo homem dos recursos naturais do planeta há muito apresenta sinais de colapso e insustentabilidade. A população mundial supera a cifra dos seis bilhões e pelo menos uma quinta parte da humanidade vive em condições rigorosamente degradantes. Ao mesmo tempo, a destruição do meio ambiente é um fenômeno global e intenso, com extraordinária capacidade para gerar problemas cada vez mais impactantes.
Os desastres naturais já são o fator principal de migração de populações humanas no planeta, superando a posição, até algum tempo intocável, das guerras. A relação direta entre a degradação ambiental e a perda de qualidade de vida não permite contestações, mesmo perante uma falsa sensação de estabilidade perpétua que todos sentimos em relação à natureza.
Somos muitos, muitíssimos. Utilizamos recursos naturais e causamos grande impacto nos ecossistemas de maneira desequilibrada, acarretando altíssimos níveis de desperdício e destruição. Parece inerente ao comportamento de nossa espécie a crônica inconsequência com o futuro.
Nos falta, mais do que tudo, uma percepção mais ampla do que realmente estamos tendo que pagar por causa desta visão imediatista que regra nossas ações. Estamos realmente consumindo o que podemos consumir ou já devemos tanto que a conta não pode ser paga sem grandes perdas no futuro?
Neste cenário, as discussões sobre o clima mundial são, ao mesmo tempo, um sinal evidente do perigo de mudanças ambientais dramáticas no planeta e uma chance única em nossa história para que providências realmente concretas e de amplitude mundial sejam colocadas em prática, através de um acordo entre quase todos os países.
Esta vem sendo a expectativa a partir das negociações da década de 90 sobre a Convenção do Clima. A formulação do Protocolo de Kyoto, em 1997, foi um avanço sem precedentes, abrindo espaço para a busca de um raro consenso mundial.
Em linhas gerais, o protocolo estabelece uma agenda para a redução de emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa para cada país, possibilitando também a implantação de ''Mecanismos de Desenvolvimento Limpo'' ou MDL, uma proposta do Brasil na qual uma infinidade de procedimentos inovadores visam colaborar com a diminuição dos fatores que vêm causando o aumento acelerado da temperatura na Terra.
Vale lembrar que os três projetos de combate ao aquecimento global através da fixação de carbono na floresta nativa em crescimento que a SPVS desenvolve no Litoral do Paraná colocam o Estado no mapa dos principais sumidouros de carbono do País.
No entanto, as negociações são lentas. Acabou de acontecer em Marrakesh, no Marrocos, a sétima reunião da ONU sobre a convenção das mudanças climáticas e fica mais uma vez evidenciada a busca ao atendimento isolado a interesses econômicos dos países em detrimento de uma agenda comum, mais rígida e preconizada por técnicos em todo o mundo.
O prejuízo é ainda maior pela visão setorizada com que muitos países interpretam a questão do clima. Em vez de ampliação das possibilidades de resultados com iniciativas que gerem benefícios múltiplos (agregando questões sociais e de conservação da natureza), as fórmulas incentivadas são aquelas que apresentam produtos mais pragmáticos no combate às mudanças climáticas.
Não há lógica no incentivo exclusivo a projetos de alguns setores privados, sem que iniciativas que gerem benefícios mais amplos sejam também consideradas. O mosaico de interfaces dos desafios do ser humano no planeta é complexo e não vem sendo enfrentado com competência. Não avançaremos mantendo posições convencionais - e, ao que parece, as negociações sobre o clima sofrem estas limitações.
O fenômeno do aquecimento global, que está sendo sentido em muitas partes do mundo, é uma boa oportunidade para o estabelecimento de uma agenda global de mudanças que podem extrapolar o foco do problema. É a chance de se reconhecer a interdependência dos grandes desafios de sustentabilidade do planeta e, principalmente, o pouco tempo que se tem para enfrentá-lo.
Lamentavelmente não é este o produto que vem sendo preparado para ser apresentado à sociedade. Os sistemas convencionais sobrepõem-se às visões inovadoras, indicando que os sinais de alarme do planeta Terra ainda não são suficientes para acordarmos sobre o novo papel que precisamos cumprir.
- CLÓVIS BORGES é diretor executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS)


